“A ironia do sucesso”
“É uma verdade inquestionável: há de se separar o indivíduo do que ele produz se quisermos preservar a admiração pelo autor de uma obra, tantas são as imperfeições do ser. Não sei se é possível”
A genialidade muitas vezes é irmã do egoísmo. Irônico pensar que o sucesso tem limites. A obra frequentemente é maior que seu autor. Isso vale para um empreendedor, um filósofo, até para um poeta, intérprete das especiarias da alma humana.
Deparo-me com um post que comenta sobre um filho de Albert Einstein, confinado em um hospital europeu como esquizofrênico. Talvez não fosse de fato e sua existência tenha sido limitada pela Psiquiatria da época.
Diz-se que o jovem era muito promissor. Expressivo, sensível, feliz. Até que ao atingir a maioridade trancou suas janelas para o mundo e recebeu o triste diagnóstico que o enclausurou na maior parte do resto de sua vida.
Penso na ironia, o filho de um gênio inquestionável que, dizem, quase não teve contato com sua cria. Migrado para os Estados Unidos na Segunda Grande Guerra, Einstein pouco sentiu os olhos e o coração desse filho, que permaneceu na Europa.
A História relata que o gênio da relatividade se limitou a prover à distância recursos ao filho, concentrado que estava seu ego na fama que o transformou num dos maiores ícones do século.
É uma verdade inquestionável: há de se separar o indivíduo do que ele produz se quisermos preservar a admiração pelo autor de uma obra, tantas são as imperfeições do ser. Não sei se é possível.
Somos costumeiramente limitados por nossos laços afetivos. As obrigações do amor levam muitos a não explorarem seu talento, seja na economia empreendedora ou no pensar. Alguns conseguem conciliar, muitos não.
Karl Marx, formulador de uma das maiores teorias do século passado, para produzir seu legado ao interpretar à sua maneira como deveríamos agir coletivamente neste mundo, relegou à fome sua mulher e seis filhos. Situação semelhante à de Gabriel García Márquez nos dois anos em que escreveu Cem Anos de Solidão.
A obra que exalta o amor é por vezes contraditória com o amor que o autor expressa no seu universo individual. Jorge Amado, por exemplo, diz-se que renegou um filho neurodivergente. O Nobel Pablo Neruda, um dos maiores intérpretes do coração humano, também em semelhante circunstância.
Diz a prudência que não se deve julgar os outros com base em seus próprios valores ou sem conhecer na intimidade os motivos. Mas descartar um filho é deplorável.
A faina do sucesso, o comprometimento com as questões da vida coletiva, ou o furor de se expressar para o mundo colocam, muitas vezes, o indivíduo numa dimensão questionável.
De fato, produzir uma obra excepcional, explorando sem limites a capacidade da mente, só é viável ao custo de sacrifício de outros. Para expressar a genialidade são necessárias circunstâncias que muitas vezes faltam a quem não está sozinho nesta vida. É o rigor do dia a dia ou a inspiração que não surge diante de tanta concretude. Poucos conseguem conciliar os dois mundos.
Não só filósofos ou poetas, também empreendedores, empresários ou gestores, homens ou mulheres, que tanto produzem, alcançam o sucesso, mas pagam o preço da ausência no lar. Que ironia é essa de o sucesso ser frequentemente inimigo do amor exemplar.
Frequentemente o sucesso excita o ego, a ponto de fazer da vida cotidiana uma permanente experiência amorosa na rua. E então alguns aventureiros não renegam o resultado da vida lasciva e acabam buscando soluções mais irônicas ainda.
Como fez o notável patrono da Independência, José Bonifácio, bem-sucedido na política e detentor de genialidade em vários campos. Não desconheceu a filha que gerou fora do casamento. Ao contrário, deu-a para a esposa criar.