A malha viária como barreira contra a violência
O Carnaval brasileiro, em sua grandiosidade e efervescência, costuma ser medido por recordes de público e movimentação financeira. Mas a festa não pode ser um salvo-conduto para o abuso. Nesse contexto, a campanha de conscientização contra agressões, assédio e importunação sexual, lançada pelo Ministério dos Transportes em parceria com o Ministério das Mulheres, surge como uma intervenção necessária e estratégica nas rodovias federais.
A escolha das estradas como palco dessa mobilização é um acerto de logística e de timing. Durante o feriado, a malha viária nacional transforma-se no sistema circulatório do País, conectando milhões de brasileiros aos grandes polos carnavalescos e às cidades do interior. Utilizar a própria infraestrutura — das praças de pedágio aos painéis de LED — para estampar o slogan “Se liga ou eu ligo 180” é uma forma de ocupar espaços que, muitas vezes, são negligenciados como pontos de vulnerabilidade ou de omissão.
A contundência da ação reside no caráter educativo e preventivo. Ao mobilizar dezenas de concessionárias — de grupos como Arteris, Ecovias e Motiva —, o Governo Federal cria uma rede de proteção que acompanha a mulher desde o início de sua viagem. A mensagem é clara: o crime de importunação sexual não viaja escondido e a vigilância é constante. A rodovia deixa de ser apenas um caminho para tornar-se um corredor de cidadania, onde a informação sobre o canal de denúncias 180 chega diretamente às mãos de motoristas e passageiros.
É essencial que o poder público e a iniciativa privada continuem utilizando esses canais de grande fluxo para pautar temas sociais urgentes. A segurança pública não se faz apenas com policiamento ostensivo, mas com a transformação da cultura da impunidade. Onde há um grande movimento de veículos, deve haver um movimento ainda maior de conscientização.
O Carnaval “com alegria e respeito”, defendido pelas autoridades, só é possível se houver o enfrentamento direto à violência de gênero em todas as suas frentes. Que o exemplo dessa campanha se torne um padrão permanente de governança nas concessões rodoviárias. Afinal, o direito de ir e vir das mulheres deve ser assegurado com a mesma eficiência com que se garante o asfalto por onde elas transitam. O Brasil que volta das estradas após a quarta-feira de cinzas precisa ser um país mais consciente de que o respeito é a única regra que não permite desvios.