terça-feira, 06 de outubro de 2026
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Opinião

Editorial

A melhor resposta ao tarifaço

O Governo dos Estados Unidos confirmou, na noite da última quarta-feira, dia 15, a imposição de tarifas de 25% sobre produtos brasileiros. Utilizou como base legal a Seção 301, dispositivo da Lei de Comércio Americana de 1974 que autoriza o Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR, na sigla em inglês) a investigar e punir práticas comerciais consideradas “irrazoáveis” por um parceiro. O instrumento muda; a lógica é a mesma do tarifaço de 50% tentado por Donald Trump em julho do ano passado, com base na Lei de Poderes Econômicos de Emergência Internacional (IEEPA), medida derrubada pela Suprema Corte americana em fevereiro. O Brasil levou um ano para chegar aqui. A decisão sobre como responder determinará os próximos anos.

O ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, foi direto ao nomear o que aconteceu: Washington exigiu a “capitulação” do Brasil, ou seja, a abertura total e irrestrita de setores inteiros da economia a empresas americanas, sem qualquer contrapartida para as exportações brasileiras. O País realizou mais de trinta reuniões presenciais, virtuais ou por telefone com representantes da Casa Branca desde março de 2025, incluindo onze contatos com o secretário de Estado, Marco Rubio, e com o próprio representante comercial Jamierson Greer. Negociou. Cedeu onde podia ceder. E recusou onde a exigência era, nas palavras do chanceler, “desmedida e irrazoável”. A tarifa de 25% é a punição por essa recusa. Lida assim, o Brasil não está numa guerra comercial que começou errada. Está pagando o preço de ter dito não a demandas que qualquer país soberano teria recusado.

O problema não é o diagnóstico. O problema é a resposta. Nos bastidores do Palácio do Planalto, a discussão recai sobre duas opções: usar a Lei de Reciprocidade para elevar tarifas sobre produtos americanos, ou manter a via diplomática e jurídica que o Governo praticou até aqui. A primeira opção tem apelo político óbvio — e custo econômico igualmente óbvio. Projeções da Fundação Getulio Vargas (FGV) mostram que uma retaliação tarifária direta elevaria a queda do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro de 0,16% para até 0,41%, enquanto o impacto adicional sobre a economia americana seria marginal, de 0,03% para 0,08%. A assimetria não é política nem ideológica, é aritmética. O Brasil tem mais a perder numa escalada do que os Estados Unidos, porque depende mais do comércio externo como proporção do PIB e porque suas exportações aos americanos são mais concentradas em setores sensíveis a choques de demanda.

A via diplomática e jurídica, apesar de mais lenta e menos espetacular, tem sustentação real. As práticas comerciais brasileiras investigadas pela Seção 30, como o sistema de pagamentos instantâneos Pix, as políticas de comércio digital, as acusações de desmatamento, são, como demonstrou o próprio chanceler, desprovidas de lastro factual. O Pix é infraestrutura pública do Banco Central do Brasil (BCB), disponível a todas as instituições que operam no mercado nacional, inclusive bancos americanos. O desmatamento na Amazônia recuou significativamente desde 2022, com dados verificáveis pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). A jurisprudência da Organização Mundial do Comércio (OMC) já condenou os Estados Unidos, em 2022, por invocar a exceção de segurança nacional do Acordo Geral sobre Tarifas e Comércio (GATT) de forma abusiva, precisamente o tipo de argumento que ressurge agora sob outro rótulo jurídico. O Brasil tem, nos foros multilaterais, um caso tecnicamente sólido. Abandonar essa posição para travar uma guerra de tarifas em que leva desvantagem estrutural seria desperdiçar a única vantagem real que possui.

O BE News defende que a resposta correta ao tarifaço americano é a combinação que a análise do episódio completo já sugere: continuar e aprofundar a diversificação de mercados, processo que levou o superávit comercial brasileiro a crescer US$ 12 bilhões no primeiro semestre de 2026, em relação ao mesmo período de 2025, em plena pressão tarifária global, o que demonstra que a estratégia funciona; consolidar o acordo entre o Mercosul e a União Europeia além da vigência provisória; accelerar as negociações com o Japão e explorar a abertura canadense para um entendimento semelhante; e manter o litígio na OMC não como gesto simbólico, mas como construção metódica de precedente jurídico que preserve a credibilidade do Brasil como litigante de boa-fé no sistema multilateral de comércio.

O chanceler Mauro Vieira disse que o que incomoda Washington é o fato de o Brasil não ter se curvado. Tem razão. E a forma mais eficaz de continuar sem se curvar não é elevar o tom do conflito com retaliação tarifária, mas provar, com a consistência da própria política comercial, que o País não precisa da aprovação americana para crescer, exportar e atrair investimento. Essa é uma mensagem que mercados, parceiros e a própria Casa Branca seguramente entendem melhor do que qualquer sobretaxa sobre produtos americanos.

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