A melhor resposta
Os números que o presidente da Agência Brasileira de Promoção das Exportações e Investimentos (ApexBrasil), Laudemir Müller, apresentou nessa sexta-feira, dia 17, são o argumento mais eloquente contra a tentação da retaliação tarifária direta, como resposta ao tarifaço determinado pelos Estados Unidos contra as cargas brasileiras com destino a seu país. No primeiro semestre do ano, o Brasil perdeu cerca de US$ 2,6 bilhões em exportações para os EUA por efeito das tarifas já vigentes. Mas compensou essa perda com um aumento de US$ 3,1 bilhões para a Europa, US$ 2,5 bilhões para a Índia e US$ 10,5 bilhões para a China. O saldo líquido é positivo. A diversificação não é projeto para o futuro; é realidade que já opera enquanto Washington confirma, com as tarifas de 25% anunciadas na quarta-feira, com base na Seção 301 da Lei de Comércio Americana de 1974, que o apetite protecionista da administração Donald Trump não diminuiu com a troca do instrumento jurídico.
O plano de R$ 130 milhões a ser lançado em agosto pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic), em parceria com 57 setores econômicos e 2,4 mil empresas exportadoras, é, portanto, menos uma mudança de rota do que uma aceleração da rota que o mercado já escolheu por conta própria. Setenta e dois por cento das empresas apoiadas pela ApexBrasil que exportam para os Estados Unidos já acrescentaram ao menos um novo destino entre junho de 2025 e maio passado. O setor privado brasileiro, diante da incerteza tarifária, fez o que empresas fazem quando o custo de um mercado sobe abruptamente: buscou alternativas. O papel do Estado, agora, é sistematizar, financiar e ampliar o que a iniciativa privada começou a fazer por necessidade.
As prioridades geográficas identificadas pela agência fazem sentido econômico e diplomático. A União Europeia, favorecida pela vigência provisória do acordo entre o Mercosul e o bloco, destravado após duas décadas de impasse, representa o mercado mais imediato para absorver cargas redirecionadas, com regras previsíveis e demanda por exatamente os tipos de produto em que o Brasil tem vantagem comparativa consolidada: proteínas animais, grãos, celulose, biocombustíveis e manufaturados de menor intensidade tecnológica. A Associação de Nações do Sudeste Asiático (Asean) — Indonésia, Malásia, Tailândia, Vietnã e outros membros — é o mercado de crescimento mais acelerado da próxima década, com populações jovens, renda per capita em ascensão e demanda crescente por alimentos, insumos industriais e produtos de consumo que o Brasil produz com escala e competitividade. E a Ásia Central — Cazaquistão, Uzbequistão e vizinhos — é o mercado de médio prazo mais subestimado na agenda exportadora brasileira: países com crescimento de 7% a 8% ao ano, interessados em parceria produtiva e com histórico de procura ativa pelo Brasil como fornecedor confiável.
O BE News concorda que a diversificação de mercados é, neste momento, a resposta mais eficaz ao tarifaço americano. Não apenas porque compensa a perda de receita com Washington, mas porque transforma uma crise em oportunidade estrutural de reduzir uma vulnerabilidade que nunca deveria ter sido tão pronunciada. O Brasil é a sétima maior economia do mundo e o quinto maior receptor de investimento estrangeiro direto, com US$ 77 bilhões captados em 2025, um crescimento de 22% num ano em que os países em desenvolvimento cresceram, em média, apenas 2%. É também o principal destino dos investimentos chineses no exterior. Uma nação com esse perfil não deveria ter concentrado tanto de sua política comercial na relação com um único parceiro, sujeito a oscilações políticas tão abruptas quanto as que a administração Trump demonstrou ser capaz de produzir. A tarifa de 25% confirmada nesta semana é, nesse sentido, um custo e também um aviso de que a dependência excessiva de qualquer mercado singular é uma escolha estratégica que o Brasil não pode mais se dar ao luxo de fazer.
O tarifaço americano chegou. As empresas brasileiras já estão respondendo. O Estado precisa agora fazer sua parte: sistematizar o que o mercado começou, financiar a expansão que o momento exige e construir, com método e continuidade, a rede de acordos comerciais e parcerias bilaterais que tornará o Brasil menos vulnerável a qualquer potência que decida, por razões políticas domésticas, usar tarifas como instrumento de pressão. A diversificação não é apenas uma resposta à crise de julho de 2026, é a política comercial que o Brasil deveria ter adotado anos atrás e que, ao menos agora, tem a urgência necessária para avançar.