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Thiago Benito Robles

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A Metáfora do Vitral

 Mercados convivem com riscos. Investidores convivem com ciclos econômicos. O que nenhum ambiente de negócios suporta é a incerteza institucional.

Ao longo da história brasileira, acostumamo-nos a olhar para a Constituição como um texto. Um conjunto de normas destinado a organizar o Estado, distribuir competências e assegurar direitos. A obra Sociologia & história do constitucionalismo brasileiro, Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, 2024. propõe uma mudança de perspectiva. Mais do que um texto jurídico, a Constituição passa a ser compreendida como um reflexo da sociedade que a produz, das escolhas que faz, das tensões que não consegue resolver e dos projetos de futuro que pretende construir.

Essa é, a meu ver, a principal contribuição da obra. Ela nos convida a abandonar uma leitura exclusivamente normativa para compreender o constitucionalismo como um fenômeno histórico, político, econômico e cultural. Nenhuma Constituição existe isoladamente. Toda Constituição dialoga permanentemente com a sociedade que pretende organizar, refletindo seus consensos, suas contradições e sua capacidade de transformar princípios em instituições efetivas.

Ao percorrer dois séculos de constitucionalismo brasileiro, os autores revelam um aspecto inquietante da nossa trajetória institucional. Mudamos Constituições, alteramos sistemas políticos, substituímos regimes, reformamos instituições e ampliamos direitos. Entretanto, muitos dos nossos dilemas permanecem surpreendentemente semelhantes. Centralização e descentralização do poder, independência das instituições, relação entre Direito e política, inclusão social, segurança jurídica, equilíbrio entre estabilidade e transformação são temas que atravessam praticamente toda a experiência constitucional brasileira.

A explicação apresentada pelos autores merece atenção. As instituições não nascem apenas da técnica jurídica. Elas são consequência das escolhas feitas por uma sociedade em determinado momento histórico. Cada Constituição incorpora valores, interesses, consensos possíveis e conflitos ainda não resolvidos. Compreender a história constitucional brasileira é, portanto, compreender também a formação do Estado, da economia e da cultura política nacional.

É nesse contexto que surge uma das imagens mais marcantes da obra. O constitucionalismo brasileiro é comparado a um vitral. A metáfora é particularmente feliz. Um vitral não é formado por uma única peça, mas por fragmentos distintos que somente adquirem sentido quando observados em conjunto. Cada elemento possui sua própria forma, sua própria cor e sua própria intensidade. Alguns permitem que a luz atravesse com mais facilidade. Outros projetam sombras. O resultado final não elimina as diferenças. Ao contrário, é justamente a harmonia entre elas que produz a beleza da obra.

A imagem descreve com precisão a própria formação institucional brasileira.

Nossa trajetória jamais foi linear. Importamos modelos estrangeiros, adaptamos experiências, preservamos tradições locais, criamos soluções originais e convivemos, muitas vezes, com estruturas modernas sustentadas por práticas profundamente antigas. O próprio livro identifica esse processo como um traço característico do constitucionalismo brasileiro, resultado de um permanente sincretismo institucional, no qual diferentes modelos convivem, se sobrepõem e, por vezes, entram em tensão.

Essa leitura histórica produz uma reflexão extremamente atual. Vivemos um momento em que o debate público frequentemente busca respostas rápidas para problemas estruturalmente complexos. Reformas, novos marcos regulatórios, mudanças legislativas e decisões judiciais são frequentemente apresentadas como soluções definitivas para desafios que, na realidade, possuem raízes muito mais profundas.

A história constitucional brasileira demonstra exatamente o contrário. Instituições não se transformam apenas porque seus textos mudam. Elas evoluem quando a sociedade modifica incentivos, práticas, relações de confiança e padrões de comportamento. O Direito abre caminhos, estabelece parâmetros e oferece estabilidade. Sua efetividade, entretanto, depende da capacidade das próprias instituições de produzir decisões legítimas, coerentes e previsíveis ao longo do tempo.

Essa percepção possui enorme relevância para o ambiente empresarial. Empresas que operam em setores regulados, na infraestrutura, na logística e no comércio internacional convivem diariamente com instituições públicas. Para elas, segurança jurídica nunca significou apenas estabilidade legislativa. Significa previsibilidade institucional. Significa confiança de que as regras do jogo serão interpretadas e aplicadas segundo critérios técnicos, transparentes e coerentes ao longo do tempo.

Esse é, provavelmente, o maior ensinamento de dois séculos de constitucionalismo brasileiro. A força de uma Constituição não se mede apenas pela qualidade do texto que a compõe, mas pela capacidade das instituições de transformar seus princípios em decisões legítimas, previsíveis e socialmente respeitadas. É nesse espaço, entre a norma escrita e sua aplicação concreta, que se constrói a confiança.

Essa reflexão ultrapassa o universo jurídico. Em um país que discute grandes investimentos, projetos estruturantes e profundas transformações econômicas, o verdadeiro diferencial competitivo não será apenas a qualidade dos ativos ou a dimensão das oportunidades. Será a credibilidade das instituições responsáveis por conduzir os processos decisórios. Mercados convivem com riscos. Investidores convivem com ciclos econômicos. O que nenhum ambiente de negócios suporta é a incerteza institucional.

É justamente por isso que a metáfora do vitral permanece tão atual. Nenhuma peça, isoladamente, explica a beleza da obra. O resultado depende da harmonia entre todas elas. O mesmo ocorre com o constitucionalismo brasileiro. O futuro não será determinado apenas pelas leis que escrevermos, nem pelas decisões que proferirmos, mas pela capacidade de nossas instituições de construir confiança, preservar legitimidade e oferecer previsibilidade. É essa combinação silenciosa que sustenta não apenas a democracia, mas também o desenvolvimento.

Thiago Benito Robles escreve quinzenalmente para o BE News.  

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