terça-feira, 06 de outubro de 2026
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Opinião

Editorial

A nova soberania latino-americana

A América Latina tem a oportunidade de romper com o ciclo de cinco séculos de extrativismo bruto, particularmente no setor de mineração, para se tornar protagonista da revolução verde. Com 45% das reservas mundiais de lítio e 30% de cobre, a região não possui apenas minérios; ela detém os insumos vitais da transição energética global. Defender a industrialização local desses recursos, como a fabricação de baterias e componentes de alta tecnologia, é a única forma de garantir que a riqueza geológica se transforme em prosperidade social e autonomia geopolítica.

A importância estratégica deste movimento, destacado no recente Seminário Internacional Energia, Integração e Soberania, realizado no Rio de Janeiro, tem como base o poder de barganha em meio à “guerra fria tecnológica” entre China e Estados Unidos. Enquanto as duas potências disputam o acesso a esses insumos, a América Latina encontra-se em uma posição privilegiada de fornecedora essencial. Contudo, como bem alertou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o ex-ministro de Minas e Energia da Colômbia Andrés Camacho, a exportação de minério de ferro ou bauxita sem agregação de valor é um erro do passado que não pode ser repetido. O “ouro branco” (lítio) e os minerais críticos devem ser o passaporte para a criação de um parque industrial regional que gere empregos qualificados e reduza a dependência de tecnologias importadas.

A importância desta pauta passa pela integração regional. A internalização de cadeias produtivas complexas pode ser inviável para um único país, mas torna-se poderosa quando pensada em bloco. A Argentina e a Bolívia possuem o gás e o lítio; o Brasil detém as terras raras e a capacidade industrial; o Chile domina o cobre. Unir esses ativos em uma política comum de transferência de tecnologia e produção de bens acabados é a estratégia de sobrevivência necessária para que a América Latina não seja apenas o “quintal de recursos” das potências globais.

A disputa geopolítica atual impõe uma urgência: a janela de oportunidade para a transição energética está aberta agora. Sem uma política agressiva de industrialização e exigência de contrapartidas tecnológicas, a região corre o risco de ver sua riqueza ser drenada para alimentar as indústrias de Pequim ou Washington, restando ao continente apenas os passivos ambientais da mineração.

Garantir que a transformação do mineral em bateria ocorra em solo latino-americano é, como definiu o governo brasileiro, uma questão de segurança nacional. O destino da América Latina no século XXI será decidido pela sua capacidade de dizer “não” à exportação primária e “sim” à inteligência produtiva. Não se trata apenas de mineração; trata-se de decidir quem terá o controle sobre a energia que moverá o futuro.

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