A Petrobras e a verdadeira lição
A presidente da Petrobras, Magda Chambriard, confirmou nessa quinta-feira, dia 24, que a Casa Branca desmentiu a possibilidade de suspender as exportações americanas de diesel para o Brasil. A ameaça, que surgiu associada à escalada das tensões comerciais entre os dois países e ao histórico de uso de restrições de exportação como instrumento de pressão pela administração Trump, durou o tempo suficiente para revelar algo que o desmentido não apaga: o Brasil importa diesel em volume que uma interrupção unilateral do fornecedor americano tornaria tal medida imediatamente problemática para cadeias de abastecimento que dependem do combustível. Que a hipótese tenha sido rapidamente descartada pela Casa Branca é uma boa notícia. Que ela tenha sido considerada plausível o suficiente para mobilizar a presidente da maior estatal do País a explicar publicamente sua estratégia de contingência é o dado que o mercado e o Governo Federal não deveriam deixar passar.
A resposta de Chambriard ao cenário foi correta em sua substância. A Petrobras tem carga contratada de diesel para outubro, está ampliando a produção interna por duas frentes — expansão de capacidade de refino e ajuste de processo para priorizar derivados nobres — e mantém negociações com refinadores indianos, incluindo a Reliance, como fonte alternativa de abastecimento. A diplomacia econômica e a estratégia de suprimento da Petrobras estão, nesse ponto, convergindo, o que sugere que a diversificação de fornecedores de combustível e a aproximação com a Índia como parceiro estratégico têm mais articulação entre si do que geralmente aparece nas coberturas separadas dos dois temas.
A projeção de que talvez, em novembro, não haja necessidade de importar diesel é o dado mais relevante da fala de Chambriard para além do contexto imediato da ameaça de Trump. Se a combinação de expansão de refino e ajuste de processo realmente reduz a dependência de importação ao ponto de eliminar a necessidade de compra externa em determinados meses, o Brasil estará se aproximando do que a presidente descreveu como autossuficiência no quinquênio. E estará fazendo isso mais rápido do que o calendário sugeriu. A autossuficiência em diesel tem valor econômico, com menos pressão sobre o balanço de pagamentos, e valor estratégico, ao garantir menos vulnerabilidade a ameaças como a que durou menos de um dia nesta semana, mas que poderia ter durado semanas em outro cenário geopolítico.
O episódio desta semana tem valor pedagógico que vai além do desmentido da Casa Branca. Num ambiente em que os Estados Unidos demonstraram, com as tarifas da Seção 301, disposição para usar instrumentos comerciais como alavanca de pressão política, a hipótese de restrição a exportações de insumos estratégicos não é ficção. Trata-se de um cenário de baixa probabilidade com alto impacto que qualquer política de segurança energética séria precisa contemplar. A Petrobras contempla: carga contratada, diversificação de fornecedores, expansão de refino. O Governo fFderal contempla na dimensão da diplomacia comercial com Índia, Mercosul e acordos multilaterais. O que o Brasil ainda não tem de forma suficientemente estruturada é a reserva estratégica de combustíveis que tornaria a janela de exposição entre uma ameaça e sua contingência mais curta e menos onerosa.
A afirmação de Chambriard, “em tempos conturbados, tudo o que a gente fizer em prol da segurança energética do País é válido”, é a frase que resume, com a economia de palavras que o momento exige, o aprendizado desta semana. A ameaça foi desmentida. A lição não foi.