A pulseira que eu queria
Amazon acaba de comprar uma startup criadora de uma pulseira que grava tudo que você fala e ouve. É uma espécie de ‘nuvem falante’ com IA que transforma as conversas em lembretes e tarefas. A princípio, ideal para os esquecidos. Terrível para quem tem algo a esconder, seja na inquisição conjugal ou diante de um tribunal.
Não a comprarei, ainda que não tema essa pulseira dedo-duro e apesar de andar mesmo meio esquecido. A tecnologia inova todos os dias, e prefiro esperar uma que arquive só as minhas melhores lembranças. A mente dispõe de amplo arquivo, mais seguro que uma nuvem qualquer, mas possui suas imperfeições. E não há magnésio que dê jeito.
Gostaria que inventassem uma pulseira com caixas como meu computador. Além da caixa de entrada, que ela tivesse a caixa de spam, para me proteger das barbaridades recebidas. Que tivesse também a caixa de lixo, para tudo sem serventia, que eu desprezasse ou quisesse esquecer.
Essa pulseira teria também uma caixa que arquivasse tudo que eu julgasse importante na minha vida, e essa sim, eu acessaria frequentemente para eternizar as melhores emoções do que vi, do que vivi e do que chegou aos meus ouvidos e ao meu nariz.
Eu então me recordaria a todo o momento do olhar apaixonado que me foi dirigido, as frases mais doces que escancararam meu pote de prazer, e particularmente os cheiros, aqueles aromas exalados inesquecivelmente do perfume francês no corpo da melhor amante, mas também o cheiro da cozinha da minha avó, da maresia do Mediterrâneo e da lenha queimada no fogão que acalentava todas as ilusões da minha infância, quando em férias no sítio da família.
Talvez o olfato seja o mais importante nesse arquivo da vida. Por isso gostaria que a nova pulseira tivesse um discreto botão que nas horas em que me sentisse mais frágil, mais saudoso ou desanimado, pudesse tocá-lo para reviver meus melhores momentos.
O mais importante de tudo, porém, é que a pulseira tivesse também um botão para deletar e jogar na lixeira definitivamente o que fosse mais triste, ou me atormentasse por más recordações. Sim, seria muito bom que eu só carregasse nesse meu arquivo o que me desse gosto e fosse saudável me lembrar.
Tivesse eu a capacidade de apagar as piores lembranças, eu acordaria sempre muito animado, otimista e determinado a saborear cada dia com o ímpeto que, na infância, subia nas árvores do sítio para recolher peras, ou espiava escondido atrás da janela, a vizinha que me encantava, e quem sabe se exporia por displicência, na intimidade do seu quarto.
Ah, como eu me sentiria leve, sonhando com o que seria meu melhor dia, dando gargalhadas com meus amigos, servindo amor na mesa de jantar com minha família, percorrendo os campos da Toscana, sentindo a fragrância da lavanda na Provença, ou simplesmente mirando o mar, na torcida de que nunca cessassem as ondas de esperança.
Pois é, essa é a pulseira que eu compraria, única capaz de me ter proveito, já que para anotar as tarefas do dia, ou registrar os desaforos ouvidos na esquina, prefiro esquecer, ou dissipar na minha calejada nuvem de memória.