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Selma Culturati

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A rastreabilidade da cadeia de suprimentos como fator de risco corporativo

Para trazer os fornecedores e adequá-los ao programa de conformidade, é importante que sejam programados não apenas treinamentos específicos, mas também, minimamente, que se desenvolva um relacionamento mais próximo com os mesmos, sem, contudo, abandonar as boas práticas de compras

A evolução do cenário regulatório internacional e a consolidação dos critérios ESG, representados pelos pilares Ambientais, Sociais e de Governança, deslocaram o eixo de análise da cadeia de suprimentos de uma companhia – de inicialmente se cobrar que as empresas que integram essa cadeia seguissem as regras que estavam no código de conduta interno de uma organização, à exigência de condutas ética, ambiental e trabalhista da cadeia de fornecedores e de parceiros indiretos, pois essas condutas passaram a integrar diretamente o perfil de risco da empresa contratante.

Diante da evolução dos negócios, a rastreabilidade da cadeia de suprimentos é muito mais que um diferencial mercadológico, tornando-se um elemento central de governança e de sustentabilidade financeira.

Em termos internacionais, a aprovação da Diretiva de Devida Diligência em Sustentabilidade Corporativa (CSDDD) pela União Europeia (Diretiva UE 2024/1760) se estende além das empresas que operam globalmente, pois estabeleceu um marco ao exigir que grandes empresas identifiquem, previnam e compensem os possíveis impactos negativos em direitos humanos e meio ambiente ao longo de todas suas cadeias de suprimentos globais.

Essa preocupação está em consonância com as diretrizes globais da OCDE (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico), quando orientam a adoção de mecanismos contínuos de auditoria sobre a origem dos insumos e seu processo produtivo, abrangendo desde a cadeia de suprimentos da matéria-prima até a mão de obra, levando em conta as condições de trabalho e o processo de operação como um todo.

Voltando nosso olhar para o Brasil, associamos os relatórios financeiros produzidos de acordo com os padrões internacionais de divulgação financeira de cada período, à sustentabilidade. Esses padrões são representados pelas normas IFRS S1 (ações relacionadas à sustentabilidade) e IFRS S2 (ações relacionadas ao clima), editadas pelo International Sustainability Standards Board (ISSB)

Por isso, é preciso tratar com especial atenção as vulnerabilidades do processo produtivo e os seus impactos em relação à sustentabilidade e ao clima, uma vez que a falta de controle sobre a cadeia de valor pode se manifestar em diferentes frentes:

A primeira delas é o risco trabalhista, que analisa as condições de trabalho que não respeitam sua mão de obra e que podem trazer não apenas processos trabalhistas, mas, também, processos civis. 

Mas o que vai além desse contexto é a certeza de que, cada vez mais, há uma expectativa do mercado em relação ao respeito que deve estar necessariamente impresso nas relações de trabalho, a moralidade da ação e a garantia de que o produto e os resultados que a organização entrega à sociedade são baseados numa relação justa de trabalho.

O risco ambiental segue o critério de justiça ambiental, que também permeia o processo de aquisição de matérias-primas e demais insumos, que necessariamente devem respeitar a origem, recusando o que for proveniente de áreas desmatadas ilegalmente ou que contenham a utilização de insumos sem o devido licenciamento ambiental. 

Empresas que desrespeitam esses critérios se sujeitam a sanções administrativas, multas e restrições de crédito. A esse aspecto, pode ser acrescentada a adoção do adequado tratamento dado aos resíduos e rejeitos, bem como seu encaminhamento a reciclagem ou descarte, quando assim couber em sua essência.

O risco de integridade e/ou fraude acontece quando há a ocorrência de fraudes, omissões/desvios de informações e ofertas ou recebimentos de subornos nas questões de logística, despachos e situações fiscais e contábeis. Estas situações são impensáveis para uma empresa que trabalha dentro de uma cultura de seriedade e que não se dobra a determinadas aparentes facilidades momentâneas, que podem levar o negócio a sofrer pesadas multas e processos, chegando até a impedimentos em prosseguir com suas atividades.

Risco reputacional ocorre quando os negócios fogem dos padrões lícitos ou legais, situação que, quando percebida e revelada, pode impactar a marca, os clientes, o crédito e demais fornecedores, levando eventualmente a empresa a ter sua continuidade abalada, em função de uma quebra de conformidade em seus processos. 

Para salvaguardar a integridade da empresa, o compliance entra fortemente com a análise de uma matriz de riscos onde cada um desses aspectos é abordado e analisado, garantindo que a governança da cadeia de suprimentos permita à organização uma conduta livre de riscos e moralmente justa.

Uma auditoria que garantirá uma identificação formal de mudança cultural não se limitará a receber, passivamente, o aceite do código de conduta por parte dos fornecedores. Muitas vezes, será necessário seguir com uma verificação, assegurando que a empresa possa realmente atestar que todos – absolutamente todos – seus insumos sejam oriundos de um processo produtivo íntegro. 

Para trazer os fornecedores e adequá-los ao programa de conformidade, é importante que sejam programados não apenas treinamentos específicos, mas também, minimamente, que se desenvolva um relacionamento mais próximo com os mesmos, sem, contudo, abandonar as boas práticas de compras, como os princípios de cotação de aquisições a cada novo pedido, aprovações e demais registros pertinentes ao processo e as boas práticas do modo produtivo dos fornecedores, garantindo a adequação do fornecimento dos insumos às exigências do mercado em que a empresa contratante atende.

Conclusão

Rastrear a cadeia de produção torna-se mais um passo que a organização assume frente ao desenvolvimento e ao amadurecimento da sua governança. E, além deste avanço, terá garantias de atender os mercados mais regulados tanto nacional quanto internacionalmente, pois são estas empresas que construirão cadeias de valor resilientes e preparadas para mitigar riscos operacionais imprevistos.

A coluna Papo de Companalmente no BE News. Contato pelo e-mail: compliance@grupobraliance, da economista Selma Culturati Vasquez, é publicada semsilexport.com.br.

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