A urgência do neoindustrialismo
O recente levantamento divulgado pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) traz um alerta severo sobre a estrutura da economia brasileira: embora as exportações de produtos de alta tecnologia tenham registrado uma alta de 7,7% em 2025, elas ainda representam uma fatia tímida de apenas 2,7% das vendas externas do País. O abismo que separa o faturamento desse segmento (US$ 9,1 bilhões) do volume gerado por bens de baixa intensidade tecnológica (US$ 130,7 bilhões) é de quinze vezes. Diante desse diagnóstico, fica evidente que o Governo Federal precisa expandir urgentemente suas ações voltadas à reindustrialização nacional. Limitar o Brasil ao papel de fornecedor de commodities e produtos de baixo valor agregado é fragilizar a economia frente às oscilações do mercado global.
Como bem destacou a CNI, o crescimento econômico com qualidade e sustentabilidade a longo prazo depende diretamente do fortalecimento dos setores de média-alta e alta intensidade tecnológica. A diversificação da produção industrial não é um capricho acadêmico, mas um escudo macroeconômico. Quando o País concentra quase 60% de suas exportações industriais em apenas três setores básicos — alimentos, metalurgia e veículos —, ele se torna vulnerável a choques externos de demanda e preço. Além disso, a pauta concentrada em alimentos e bebidas industrializados, impulsionada pelo comércio de carne bovina para a China, expõe que o avanço fabril nacional ainda está excessivamente atrelado ao primeiro elo da cadeia produtiva.
O sintoma mais grave desse atraso produtivo reflete-se no mercado interno: o aumento do consumo dos brasileiros em 2025 não gerou riqueza para as fábricas locais, mas sim para os fornecedores estrangeiros. As importações da indústria de transformação subiram 8,6%, resultando em um déficit comercial recorde de US$ 71,3 bilhões — o pior resultado desde o início da série histórica em 1997. Setores estratégicos como os de químicos, máquinas, equipamentos eletrônicos e veículos automotores lideram esse fluxo de compras externas. Esse cenário demonstra que o Brasil está abrindo mão de desenvolver tecnologia própria e de gerar empregos qualificados, preferindo importar o conhecimento que a China (líder no fornecimento ao País com US$ 70,6 bilhões) e outras nações produzem em larga escala.
Para reverter esse quadro de dependência, o Governo Federal deve liderar uma política de reindustrialização ativa, focada em inovação, incentivos fiscais para a transição digital e atração de investimentos em pesquisa e desenvolvimento. O crescimento de 3,7% nas exportações industriais totais, mesmo diante da queda dos preços dos manufaturados no mercado internacional, prova que a indústria do País possui resiliência e fôlego para competir globalmente. No entanto, o esforço isolado das empresas não basta. O Estado precisa pavimentar o caminho para o “neoindustrialismo”, transformando o Brasil em um produtor de soluções de ponta e garantindo que a economia nacional seja forte, diversificada e soberana no cenário internacional.