terça-feira, 06 de outubro de 2026
Dolar Com.
Euro Com.
Libra Com.
Yuan Com.
Opinião

Artigos

Patrícia Lia Brentano

Clique para ver mais

Articulista

A verdade nua e crua

A verdade nua e crua é que sabemos o que precisa ser feito. O que falta não é conhecimento técnico, nem arcabouço regulatório. Falta alinhamento real, compromisso com a entrega e disposição para sair do confortável ciclo da discussão infinita.

Existe uma diferença silenciosa e profundamente conveniente entre estratégia e encenação.

No discurso corporativo, especialmente em setores altamente regulados como o portuário, nos acostumamos a conviver com reuniões intermináveis, planos que nunca saem do papel e decisões cuidadosamente postergadas. Tudo parece tecnicamente correto, juridicamente embasado, institucionalmente validado. Mas, na essência, falta o principal: a verdade.

A verdade simples, direta e, muitas vezes, incômoda.

No setor portuário brasileiro, esse fenômeno não é novo. O caso do leilão do STS10, em Santos (SP), talvez seja um dos exemplos mais emblemáticos. Há mais de uma década se fala na necessidade de expansão da capacidade, modernização e aumento de eficiência. Estudos são realizados, consultas públicas acontecem, audiências são promovidas. O projeto existe há mais de uma década — tempo suficiente para ser estudado, debatido e, principalmente, executado. E, ainda assim, não avança.

Não por falta de viabilidade técnica, mas por uma combinação de interesses, disputas e decisões que preferem o adiamento à resolução.

Cria-se, assim, uma espécie de “zona de conforto institucional”, onde todos parecem estar fazendo algo — mas nada, de fato, acontece.

Essa mesma lógica se repete no ambiente jurídico. Processos que deveriam ser objetivos e focados na análise de um direito violado tornam-se arenas de estratégias paralelas. Recursos sucessivos, incidentes processuais, pedidos acessórios. Instrumentos legítimos, sem dúvida, mas muitas vezes utilizados não para esclarecer a verdade, e sim para evitá-la.

O resultado é um desvio de finalidade silencioso: o processo deixa de ser um meio para se alcançar justiça e passa a ser um mecanismo de gestão de tempo, pressão e desgaste.

No mundo corporativo, chamamos isso de governança. No jurídico, de devido processo legal. Mas em ambos os casos, quando mal utilizados, servem como uma camada sofisticada de proteção contra decisões difíceis.

E decisões difíceis exigem coragem.

Exigem reconhecer conflitos de interesse, assumir posições claras e, sobretudo, priorizar o coletivo em detrimento de ganhos individuais ou de curto prazo. Exigem também simplificar — cortar o excesso de etapas, reduzir o ruído e focar no essencial.

Porque a verdade, no fim, é sempre mais simples do que parece.

O desafio está justamente em aceitá-la. O filósofo Friedrich Nietzsche, em Sobre Verdade e Mentira no Sentido Extramoral, já alertava que os seres humanos não buscam a verdade por si mesma, mas tendem a preferir versões mais convenientes da realidade. Muitas vezes, evitam a verdade justamente pelo custo que ela impõe — seja a ruptura de estruturas, a perda de privilégios ou a necessidade de reposicionamento.

Em um ambiente onde a complexidade muitas vezes é valorizada como sinal de sofisticação, dizer o óbvio pode soar quase subversivo. Mas é exatamente isso que falta.

No caso dos portos, isso significa enfrentar, de forma transparente, as razões pelas quais projetos estruturantes não avançam. Significa parar de simular progresso e começar a entregar resultados. O Brasil não carece de diagnósticos — carece de execução.

A verdade nua e crua é que sabemos o que precisa ser feito. O que falta não é conhecimento técnico, nem arcabouço regulatório. Falta alinhamento real, compromisso com a entrega e disposição para sair do confortável ciclo da discussão infinita.

Enquanto continuarmos confundindo movimento com progresso, seguiremos acumulando planos e adiando soluções.

E o custo disso não é abstrato. Ele se traduz em perda de competitividade, aumento de custos logísticos e oportunidades desperdiçadas.

A verdade não é complexa. Complexo é tudo o que se constrói para evitá-la.

Patrícia Lia Brentano escreve quinzenalmente para o BE News.

Compartilhe:
TAGS

Leia também