terça-feira, 06 de outubro de 2026
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Opinião

Editorial

Alerta nos rios da Amazônia

O nível das águas do Rio Negro estava em 24,09 metros no início deste mês de setembro. Na sexta-feira, já marcava 21,26 metros, uma queda de 2,83 metros em dezoito dias, com o ritmo atual de 18 centímetros por dia superando o observado na mesma data nos três anos anteriores ao recorde negativo de 2024. A cota ainda está 9,15 metros acima da marca histórica de 12,11 metros registrada em outubro daquele ano, e o Serviço Geológico do Brasil (SGB) informa que a maior parte dos rios amazônicos está dentro do esperado para o período de vazante. Isso é o contexto que impede o alarmismo, e que não deve ser confundido com ausência de risco. O que os dados desta semana descrevem é um rio que desce mais rápido do que o habitual, numa região onde a velocidade da descida determina quanto tempo os operadores de transporte hidroviário têm para se adaptar antes que o calado disponível se torne restritivo.

A distinção que o SGB faz entre o comportamento do Rio Negro, dentro do esperado para o período, mas com ritmo acelerado, e a bacia do Rio Branco, em Roraima, onde os níveis estão abaixo das mínimas históricas para o período, é relevante para a gestão do risco logístico. Roraima é o caso mais urgente: níveis abaixo das mínimas históricas indicam condição anormal que pode comprometer operações de navegação com antecedência menor do que o padrão do período de vazante. O Rio Negro, com seu ritmo acelerado mas cota ainda elevada, oferece uma janela de adaptação que a bacia do Rio Branco pode não estar oferecendo. Essa distinção precisaria estar na mesa das autoridades responsáveis pelo transporte aquaviário na região, com planos de contingência diferenciados para cada bacia, e não com resposta uniforme ao conceito genérico de “seca amazônica”.

O que torna esses dados particularmente relevantes neste momento é seu contexto. A dragagem emergencial do Rio Tapajós, cuja autorização permaneceu em impasse entre o DNIT, o Ministério Público Federal e as comunidades ribeirinhas por semanas, até ser definitivamente cancelada, demonstrou que o Brasil ainda não tem o mecanismo institucional que permite agir preventivamente nas hidrovias amazônicas quando os indicadores sinalizam risco com antecedência suficiente. O Instituto Brasileiro de Petróleo calculou que a paralisação do Tapajós poderá forçar o deslocamento de 22 mil caminhões adicionais por ano para as rodovias. O Rio Negro descendo a 18 centímetros por dia é o tipo de dado que deveria acionar automaticamente protocolos de preparação, não apenas monitoramento, mas ação prévia sobre os trechos críticos de menor profundidade que limitarão a navegação quando a cota cair mais.

O monitoramento hidrológico que o SGB realiza é tecnicamente sólido e está sendo comunicado com clareza. O problema não está na informação. O desafio está no que acontece com ela depois. Saber que o Rio Negro desce a 18 centímetros por dia, que o Rio Branco está abaixo das mínimas históricas e que a vazante dependerá das chuvas de setembro a novembro são dados que deveriam alimentar, de forma automática, um sistema de resposta logística com protocolos definidos: quais trechos serão dragados preventivamente, quais rotas serão adaptadas, quais comunidades precisarão de abastecimento alternativo e com qual antecedência essas decisões precisam ser tomadas para chegar a tempo. Esse sistema não existe de forma institucionalizada no Brasil. E cada nova seca demonstra o custo da sua ausência.

A dependência do comportamento das chuvas entre setembro e novembro é a variável que ninguém controla. Mas a preparação para os cenários possíveis é a variável que o Estado pode e deve gerenciar. Se as precipitações previstas não se confirmarem, a vazante se prolongará nas calhas dos rios Amazonas, Solimões, Negro e Tapajós, segundo o SGB. Para 7,5 milhões de pessoas que dependem dessas hidrovias para receber combustíveis, alimentos e medicamentos, o prolongamento da vazante sem preparação adequada não se limita a um fenômeno climático. Para elas, será uma falha de gestão pública com consequências verificáveis em preço, acesso e qualidade de vida. O Rio Negro desceu 2,83 metros em dezoito dias. O Brasil tem algumas semanas para agir antes que a janela de preparação se feche.

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