Amazônia: ameaças internas
Para alguns brasileiros, o “inferno verde” precisa ser conquistado, transformado, explorado e modificado. Esta visão destruidora, mais do que integradora e saqueadora, longe de cooperativa, representa muito do que segue sendo falado nos debates nacionais sobre a Amazônia
O professor Vladimir Safatle (Universidade de São Paulo) lançou no dia 10/03 o livro “Ameaça Interna”, que elabora sobre a “psicanálise dos novos fascismos globais”. O livro traz importantes reflexões filosóficas. A partir de seu conteúdo sobre a continuidade de processos excepcionais, que levam a guerras e à normalização da barbárie com outros povos e culturas, trago algumas de suas ideias para uma reflexão em um paralelo potencial com a Amazônia e para as imagens que fazemos sobre nós e nosso território nacional.
Como ele destaca, para alguns brasileiros, o “inferno verde” precisa ser conquistado, transformado, explorado e modificado. Esta visão destruidora, mais do que integradora e saqueadora, longe de cooperativa, representa muito do que segue sendo falado nos debates nacionais sobre a Amazônia. Ele esclarece que parte da tradição brasileira é que quem estiver mais próximo da natureza amazônica deve ser transformado ou destruído.
A indiferença e a falta de solidariedade social com quem vive na Amazônia fazem o progresso parecer uma ideia de apagamento das pessoas. A dinâmica das capitais e dos centros de poder é muito mais evidente nas periferias dos sistemas sociais. Nesta forma, a potencial adesão ao progresso significaria uma mudança de um modo de vida e não uma integração das vidas.
A exploração dos minerais ou do petróleo amazônico passaria, portanto, pelo ato de ignorar as regiões. A segregação das sociedades locais para a implantação de projetos de desenvolvimento leva para a extração de riquezas e subordinação ao modo de vida da metrópole, como se este fosse o ideal amazônico: uma nova Bacia de Campos para o petróleo ou um novo interior de Minas Gerais para os minérios. Não há uma expectativa de um modo diferente de vida ou de produção. Há até mesmo um ideal agroextrativista ou agroindustrial intensivo, onde plantações de café, cana de açúcar ou soja adentrem o território amazônico.
A crise do clima, a crise ambiental ou a crise do desmatamento não surgem como crises a serem combatidas, mas crises permanentes com as quais deveríamos conviver e aceitar. Os debates públicos não causam indignação ou vontade de proteção da floresta. A destruição dos espaços de indígenas não é percebida como um problema – quando muito se aponta o sofrimento dos povos com a falta de recursos pela perspectiva urbana e não pela perspectiva própria daqueles povos.
Poderemos ter, em breve, as ameaças estrangeiras na Amazônia. Todavia, parafraseando o professor Safatle, as ameaças e práticas constantes de que temos que nos defender são, inicialmente, as ações internas de destruição de costumes e a falta de aceitação social dos nossos modos de vida, e no paralelo potencial que destaco, nossos modos de vida amazônicos. Está aí um dos maiores desafios: integrar a Amazônia ao Brasil pelo que ela é e não pelo que ela pode ser, ao mudar seus modos de vida.
Augusto Cesar Barreto Rocha é professor da Universidade Federal do Amazonas. Ele escreve semanalmente para o BE News, com seus textos publicados às terças-feiras.