terça-feira, 06 de outubro de 2026
Dolar Com.
Euro Com.
Libra Com.
Yuan Com.
Opinião

Artigos

Augusto Cesar Barreto Rocha

Clique para ver mais

Articulista

Amazônia das eleições

A potência da Amazônia começará a surgir para o País a partir do momento em que a região for respeitada e dialogue como parte da federação. A partir do momento em que as populações locais sejam ouvidas para liderar as transformações.

Qual será o debate sobre a Amazônia nas próximas eleições presidenciais e para os governos estaduais da região? Se for mantido o debate superficial da atualidade, parece-me que, em um lado, teremos aqueles que querem transformá-la em uma grande fazenda, adicionando a entrega de terras raras e minerais para os estrangeiros. Em outro lado, teremos aqueles que querem usar os recursos para grandes grupos empresariais nacionais, com um bom disfarce de proteção ambiental quase razoável. Parecem longe do debate nacional e regional a transformação social ou a proteção ambiental.

É notável o quanto a média da discussão política nacional regrediu em todas as frentes. É uma marcha acelerada ao passado. Enquanto a alta tecnologia e o desenvolvimento das sociedades poderiam ser o núcleo do debate, o que temos é uma marcha para a subserviência estrangeira ou para os campeões nacionais aqui e acolá – ao invés de uma construção sistêmica de políticas públicas voltadas para a transformação da sociedade. Agora teremos até linhas de financiamento para apoiar a operação de aplicativos e de usuários de apps, facilitando o trabalho informal.

Precisamos que as instituições da Amazônia comecem a prescrever políticas públicas para o desenvolvimento das sociedades locais com maior impacto econômico. Para isso, é necessário que seja construída uma infraestrutura de transporte, energia e telecomunicações, associada com o potencial econômico de cada região. Por ora, só há projetos para usar os rios como corredores de exportação de soja ou algodão. Há ainda uma insistente e deplorável ideia de concessão dos rios, sem contrapartidas visíveis. Também se verifica uma incapacidade de diálogo dos gestores de Brasília, que, no máximo, ouvem, mas seguem a ignorar as demandas de quem está na Amazônia. A política do Governo Federal tem flutuado entre o nem ouvir e ignorar e o ouvir ignorando. Até quando seguiremos nesta estrutura de poder?

A potência da Amazônia começará a surgir para o País a partir do momento em que a região for respeitada e dialogue como parte da federação. A partir do momento em que as populações locais sejam ouvidas para liderar as transformações. A partir do momento em que os preceitos constitucionais de redução das desigualdades sejam respeitados, o investimento na região seja proporcionalmente maior do que nas demais áreas do País. Enquanto este conjunto de premissas não acontecer, seguiremos a nos preocupar com o El Niño como uma mensagem distante e um olhar de pena com as crises humanitárias, sem uma ação de política pública transformadora.

Por ora, há poucas vozes nacionais sobre a Amazônia que sejam para além do fazendão, para além da extração de minérios ou impostos. Precisamos encontrar um caminho de diálogo construtivo, para que não repitamos a história da Mata Atlântica ou do Cerrado, onde há poucas culturas agrícolas e uma extinção da riqueza potencial da biodiversidade. Temos terras raras, petróleo, água e muitas outras potências, mas enquanto não reconhecermos e enquanto não estimularmos as potências das sociedades organizadas da região, seguiremos com um comportamento do século XVIII, precisando gerar riquezas para padrões de gasto do século XXI – é uma conta que não fecha.

Augusto Cesar Barreto Rocha é professor da Universidade Federal do Amazonas. Ele escreve semanalmente para o BE News, com seus textos publicados às terças-feiras.

Compartilhe:
TAGS

Leia também