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Augusto Cesar Barreto Rocha

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Amazônia: entre o abandono e a soberania

Vez por outra, tenho dúvidas se o País realmente se interessa pelas regiões mais remotas, pois elas seguem isoladas e sem planos substantivos de investimentos em desenvolvimento transformador, nem com um mínimo do antigo mote do “integrar para entregar”.

As eleições presidenciais estão chegando. Quais os planos para a Amazônia? Parece que o plano principal é o antagonismo de cada um com os demais. E em relação ao que pode ser feito com este território, de modo diferente do que tem sido feito ao longo dos últimos anos? Não há nada de novo nas falas ou projetos tornados públicos até aqui. Não há propostas arrojadas ou simples de transformação para melhor. No ritmo em que vai a subordinação internacional em outros campos do debate, é possível até que seja colocada em dúvida a nossa soberania sobre a região ou até mesmo uma proposta de venda. Felizmente, isso não aconteceu e tomara que não aconteça em qualquer das frentes do embate político.

Vez por outra, tenho dúvidas se o País realmente se interessa pelas regiões mais remotas, pois elas seguem isoladas e sem planos substantivos de investimentos em desenvolvimento transformador, nem com um mínimo do antigo mote do “integrar para entregar”. Temos regiões prósperas nas duas grandes capitais amazônicas (Manaus e Belém) e no seu entorno mais próximo. Entretanto, segue sendo muito caro o trânsito por avião na Região Norte como um todo. E ainda é muito complexo chegar ao interior mais profundo. Quando muito, surge um interesse extrativo, como o petróleo na costa do Amapá.

Diferente das pré-campanhas para o Executivo Federal, começam a surgir propostas arrojadas nos Estados. Surge em debate, no Amazonas, a possibilidade de criação de uma parceria público-privada para uma empresa aérea para voos regionais. Isso me lembrou a Taba, que teve a sua operação entre 1976 e 1999, por uma iniciativa do Governo Federal, com atuação nos estados do Acre, do Amazonas, do Amapá, de Rondônia, Roraima, do Pará e do Mato Grosso.

Esta possível empresa terá grande chance de sucesso. Na Região Norte, segundo dados da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), entre junho de 2024 e junho de 2026, voar custava em média R$ 0,9366 / km com correção do IPCA. No mesmo período, a média nacional é de R$ 0,5224. Ou seja, é 79,2% mais caro voar no Norte do Brasil do que na média nacional, com o Norte incluído. É curioso observar que, em muitos assuntos, parece que estamos com problemas dos anos 1970. Falamos em conquistar uma região que, em tese, é nossa. Falamos em alinhamento com países estrangeiros, lembrando os anos áureos do fascismo. Há até espaço no ambiente político e no debate público para questionamentos sobre a democracia. Ainda bem que nem tudo é igual ao que era e ainda prevalece alguma racionalidade.

No contexto do debate público, a legislação ambiental foi atualizada para permitir, dentre outras coisas, a recuperação da BR-319, cuja recuperação foi iniciada há pouco tempo. 

Estas duas ações poderão, em conjunto, começar a criar uma ambiência para o transporte mais competitivo na Região Norte. Em paralelo a isso, temos quase nada no debate. De fato, há tentativas do governo atual de conceder rios para favorecer outros países, da Câmara dos Deputados de abrir os céus para empresas estrangeiras, favorecendo outros países. Quase nada há para melhorar a condição da Amazônia para os amazônidas. Seguimos com pautas que favorecem estrangeiros ou facilitam a extração de riquezas. 

Parece que os candidatos aos governos da Amazônia precisarão montar seus próprios planos. Não parece que teremos uma eleição federal com propostas que busquem os interesses da região. Tomara que, pelo menos, não entre na pauta um interesse em entregar a Amazônia. Não ter isso no debate público parece que será uma vitória no ritmo das insanidades. Parece pouco, mas, no contexto atual, é o que temos e não é pouco.

Augusto Cesar Barreto Rocha é professor da Universidade Federal do Amazonas. Ele escreve semanalmente para o BE News, com seus textos publicados às terças-feiras.

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