terça-feira, 06 de outubro de 2026
Dolar Com.
Euro Com.
Libra Com.
Yuan Com.
Opinião

Editorial

Anúncios e realizações

O Porto de Santos tem uma agenda de investimentos que, somada, supera R$ 2 bilhões em projetos em diferentes estágios de maturação: a dragagem de aprofundamento do canal de navegação, a segunda fase da Avenida Perimetral, a concessão da Usina Hidrelétrica de Itatinga e, à espera de desfecho regulatório, o Tecon Santos 10, o megaterminal de contêineres e carga geral a ser implantado na região do Saboó. O presidente da Autoridade Portuária de Santos (APS), Anderson Pomini, apresentou essa carteira nessa terça-feira, dia 23, com um justificado otimismo quanto a sua realização. São empreendimentos necessários e urgentes, é claro. Mas o histórico de Santos e do setor de infraestrutura brasileiro em geral mostra que o valor de uma agenda de investimentos só se realiza quando as obras terminam, não quando os contratos são assinados.

O caso mais avançado é o da dragagem de aprofundamento do canal de 15 para 16 metros, cujo contrato foi assinado em junho com a Jan de Nul do Brasil, com investimento de R$ 617,9 milhões. Como o BE News argumentou quando da assinatura desse contrato, trata-se de obra inadiável: navios modernos já acessam o Porto com 80% de capacidade de carga, aguardando maré favorável para entrar com segurança, uma restrição que eleva custos e reduz a competitividade de cada tonelada exportada. O contrato está assinado; o início dos trabalhos está previsto para 2027. Esse intervalo precisa ser monitorado de perto, porque é justamente entre a assinatura e a largada das máquinas que projetos de grande porte acumulam atrasos que depois se tornam crônicos.

A segunda fase da Avenida Perimetral é o projeto em estágio mais incerto. Orçado em R$ 1 bilhão e com a proposta de ser executado como contrapartida pela Bunge, o empreendimento aguarda ainda uma resposta da Agência Nacional de Transportes Aquaviários (Antaq) e, na sequência, a análise do Tribunal de Contas da União (TCU), dois passos sem data definida, embora o presidente da APS acredite que as obras comecem em outubro. A crença é razoável, mas a experiência com processos que dependem da Antaq e do TCU em sequência — como demonstrou o longo impasse em torno do Tecon Santos 10 — recomenda cautela. Outubro é um prazo que a APS, a Antaq e o TCU devem tratar como compromisso, não como estimativa.

A concessão da Usina Hidrelétrica de Itatinga, construída pelo Porto há 110 anos e, hoje, anacrônica como ativo gerido diretamente pela Autoridade Portuária, é uma decisão acertada em sua concepção. Repassar a gestão energética ao mercado, com exigência de repotencialização de 12 para 30 megawatts e incentivo à produção renovável, libera a APS para sua missão central e garante a modernização da infraestrutura energética do complexo. O edital já foi publicado. Mas o leilão precisa ser concluído com celeridade, especialmente num momento em que a eletrificação das operações portuárias começa a se tornar padrão competitivo no setor, como demonstrou o novo terminal da APM em Suape.

Diante deste cenário, o BE News entende que a Autoridade Portuária de Santos enfrenta o desafio mais difícil de qualquer gestor de infraestrutura: manter a execução simultânea de múltiplos projetos de grande porte sem que o atraso de um contamine o cronograma dos outros. O risco é conhecido. Santos já viveu situações em que a dependência de aprovações regulatórias em cascata transformou projetos bem estruturados em obras eternas. A diferença agora é que o Porto opera genuinamente próximo ao limite de sua capacidade, e cada mês de atraso tem custo concreto: navios maiores que não entram totalmente carregados, cargas que são desviadas para outros terminais, fretes que sobem e exportadores que pagam a conta.

A carteira de Santos é boa. A comunicação de Pomini é transparente. O que o setor e a sociedade esperam agora é que os anúncios desta semana sejam o último capítulo do planejamento e, em especial, o primeiro da execução. Dragagem iniciada em 2027 conforme contratado, Perimetral com canteiro aberto em outubro, Itatinga leiloada antes do fim do ano, Tecon Santos 10 com edital publicado até agosto: esses são os marcos concretos pelos quais a gestão da APS deverá ser julgada. Não pelo que prometeu, mas pelo que entregou.

Compartilhe:
TAGS

Leia também