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Luis Antonio de Mello Awazu

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Arco Norte: quando eficiência logística exige maturidade institucional

Quanto mais o Brasil depende do Arco Norte, maior deve ser sua capacidade coletiva de antecipação. Resiliência não é eliminar a incerteza nem impedir que rios variem. É reduzir a distância entre o sinal de risco e a decisão, entre a decisão e a execução, e entre organizações que precisam atuar de forma coordenada.

O Arco Norte tornou-se peça central da competitividade brasileira. Em 2025, seus portos movimentaram cerca de 58 milhões de toneladas de grãos e, entre janeiro e julho de 2026, responderam por 46,12% das exportações brasileiras de milho e 39,03% das de soja. Esse avanço reduziu distâncias e diversificou rotas, mas trouxe uma consequência: quanto maior a dependência econômica do corredor, maior o impacto potencial de sua interrupção.

A questão, portanto, não é apenas saber se os rios amazônicos continuarão navegáveis. O problema é mais amplo: estamos institucionalmente preparados para antecipar, coordenar e responder a restrições capazes de afetar exportações, cadeias de suprimento, produção industrial, emprego, arrecadação e abastecimento?

A seca amazônica de 2023 mostrou que esse risco não é abstrato. Durante cinquenta dias iniciados em outubro, registrou-se apenas um navio na unidade portuária de Manaus, contra dezoito no mesmo intervalo do ano anterior. O quantum importado caiu 53%, os custos logísticos extraordinários foram estimados em cerca de R$ 1,4 bilhão e a produção industrial do Amazonas recuou 7,3% no trimestre encerrado em novembro. Um fenômeno hidroclimático tornou-se rapidamente um problema econômico.

O El Niño 2026-2027 não permite afirmar que haverá crise semelhante. Mas previsões climáticas e hidrológicas existem justamente para permitir decisões antes que a crise se materialize. A maturidade institucional começa quando informação deixa de ser apenas diagnóstico e passa a alterar planejamento, orçamento, contratos, estoques, rotas e planos de continuidade.

É nesse ponto que o Arco Norte deixa de ser somente um tema de engenharia hidroviária. Trata-se de um sistema complexo, formado por União, estados, municípios, agências, operadores, terminais, empresas, comunidades, financiadores e seguradoras. Cada ator detém apenas parte das competências e dos recursos. A continuidade do corredor depende dessas interfaces.

Governança multinível, nesse contexto, não significa criar mais comitês. Significa definir quem compartilha informação, quem decide, quais indicadores acionam medidas preventivas, como recursos são mobilizados e quais alternativas estão preparadas antes da restrição crítica. Instituições competentes podem produzir baixa capacidade coletiva quando suas decisões são fragmentadas ou tardias.

Também não basta conhecimento técnico. Hidrologia, engenharia, navegação, logística, economia, regulação e meio ambiente precisam convergir para decisões comuns. O desafio não é a falta de especialização, mas transformar conhecimentos especializados em uma visão sistêmica capaz de orientar escolhas.

A experiência recente mostra que adaptação pode assumir diferentes formas. Dragagem e manutenção hidroviária são relevantes, mas não são as únicas alternativas. Em 2024, a Operação Itacoatiara organizou transbordo entre navios oceânicos e balsas de menor calado durante a estiagem. Em 2026, o Super Porto Verde ampliou a capacidade permanente de transbordo de granéis. Reduzir vulnerabilidade não significa necessariamente controlar a ameaça física; pode significar adaptar infraestrutura, frota, estoques, contratos e rotas.

Por isso, a decisão não deve procurar uma solução única. É necessário comparar custos, tempo de implantação, perdas evitáveis, robustez em diferentes cenários, impactos socioambientais, flexibilidade e risco residual. Em ambiente de incerteza climática, maturidade significa preservar opções e construir portfólios de adaptação.

A legislação brasileira oferece bases para essa abordagem. A Política Nacional de Proteção e Defesa Civil determina integração com políticas de recursos hídricos, infraestrutura, mudança do clima, meio ambiente, ordenamento territorial, ciência e tecnologia. A Lei nº 14.904/2024 reforça a incorporação do risco climático às políticas setoriais e infraestruturas estratégicas. A questão não está apenas em possuir normas, mas em convertê-las em governança, planejamento e execução.

Esse é um dos problemas centrais discutidos no livro Clima, Riscos e Desastres: normas, planos, tecnologias e recursos somente produzem resiliência quando se transformam em capacidade institucional operante. Entre possuir uma regra e reduzir efetivamente uma vulnerabilidade existe uma distância que envolve governança, conformidade, capacidade institucional, cultura de prevenção e competência técnica.

O Arco Norte oferece um exemplo concreto dessa discussão. A eficiência em condições hidrológicas normais não pode ser o único indicador de desempenho de uma infraestrutura estratégica. É preciso perguntar como o sistema funciona sob estresse, quanto tempo leva para reagir, quais alternativas possui, quem assume responsabilidades e quanto do impacto econômico poderia ser evitado por decisões antecipadas.

Essa perspectiva precisa alcançar planejamento, orçamento e controle. Se o risco climático aparece apenas em relatórios técnicos, mas não influencia investimentos, contratos, seguros, estoques e planos de continuidade, existe conhecimento sem capacidade de ação. O controle, por sua vez, deveria avaliar não apenas a regularidade do gasto, mas se as escolhas realizadas reduziram vulnerabilidades e ampliaram a continuidade do sistema.

Quanto mais o Brasil depende do Arco Norte, maior deve ser sua capacidade coletiva de antecipação. Resiliência não é eliminar a incerteza nem impedir que rios variem. É reduzir a distância entre o sinal de risco e a decisão, entre a decisão e a execução, e entre organizações que precisam atuar de forma coordenada.

O desafio do Arco Norte, portanto, não é apenas manter rios navegáveis. É assegurar que o crescimento de sua importância econômica seja acompanhado pelo crescimento da maturidade institucional necessária para protegê-lo. Essa é uma agenda de clima, riscos e desastres, mas também de competitividade, planejamento, governança e desenvolvimento.

Luis Antonio de Mello Awazu. Advogado e executivo do setor de Infraestrutura. Mestre em Direito pelo Instituto Brasileiro de Ensino, Desenvolvimento e Pesquisa (IDP). Doutorando em Administração Pública. Autor de Clima, Riscos e Desastres. 

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