terça-feira, 06 de outubro de 2026
Dolar Com.
Euro Com.
Libra Com.
Yuan Com.
Opinião

Artigos

Clara Laface

Clique para ver mais

Articulista

Autenticidade: a coragem de ser você mesmo com maturidade e responsabilidade

Deveria ser tão natural sermos nós mesmos, não é verdade? Afinal, cada pessoa nasce com uma combinação própria de história, temperamento, gostos, medos, desejos e contradições. Não existem duas pessoas iguais, mas, na prática, muita gente passa a vida tentando caber em modelos que não foram feitos para ela. Desde cedo, aprendemos que ser aceito pode exigir alguns ajustes. Em algum momento, a tentativa de convivência pode virar tentativa de apagamento. E é aí que a autenticidade começa a virar assunto.

A palavra autenticidade vem do latim authenticus, que tem origem no grego authentikós. O conceito traz a ideia de originalidade, de algo que vem da própria fonte. Também se relaciona com a capacidade de agir por conta própria, sem viver apenas reagindo ao olhar dos outros. Essa origem ajuda a lembrar que autenticidade é conseguir reconhecer o que pertence a você e o que foi absorvido apenas para evitar rejeição. Parece simples, mas quase nunca é.

Em algum momento da vida, quase todos nós deixamos partes de nós pelo caminho. Na adolescência, isso costuma ficar muito evidente. Quem nunca ouviu uma banda, usou uma roupa, repetiu uma opinião ou mudou um comportamento para ser aceito? Às vezes, isso é apenas uma fase. Mas, em muitos casos, o processo é bem mais doloroso. Há pessoas que escondem gostos, crenças, afetos e até a própria identidade por medo de preconceito. Homofobia, machismo, racismo, intolerância religiosa e tantas outras violências ensinam muita gente a se esconder para sobreviver.

O problema é que esse tipo de anulação contínua cobra um preço. A pessoa passa a se vigiar o tempo inteiro. Ri quando não acha graça, concorda quando discorda, evita certos assuntos, esconde preferências e calcula cada gesto antes de agir. Aos poucos, já não sabe se escolheu algo porque realmente queria ou porque aprendeu que aquilo seria mais aceito. Isso gera uma sensação constante de inadequação. Como se houvesse algo errado em ser quem se é. E viver tentando provar que merece pertencer cansa mais do que parece.

Mas autenticidade também não pode ser confundida com fazer qualquer coisa. Ser autêntico não significa dizer tudo o que pensa, do jeito que quiser, na hora que quiser. A vida em sociedade exige cuidado. A dor do outro não pode ser tratada como trivialidade. Há quem use sinceridade como desculpa para falta de educação, impulsividade como prova de personalidade e dureza como sinal de força. Isso não é maturidade. É só uma forma mais aceitável de chamar descontrole.

Por isso, a famosa síndrome de Gabriela precisa ser revista. “Eu nasci assim, eu cresci assim” pode até funcionar como música, mas não deveria servir de justificativa para não amadurecer. Ser fiel a si mesmo não significa permanecer igual para sempre. Uma pessoa pode preservar seus valores e, ao mesmo tempo, rever atitudes, abandonar preconceitos, pedir desculpas, aprender a escutar e melhorar a forma como se relaciona. Mudar não apaga quem somos. Em muitos casos, mostra que estamos prestando atenção.

Autenticidade envolve responsabilidade. Envolve conhecer pontos fortes, fragilidades, limites e incoerências. Envolve saber o que se acredita de verdade, sem viver apenas tentando atender expectativas alheias. Também exige coragem para admitir quando existe distância entre discurso e prática. Muita gente quer parecer autêntica, mas não quer fazer o trabalho básico de se conhecer. É mais fácil defender uma personalidade forte do que reconhecer inseguranças. 

Nas redes sociais, essa conversa fica ainda mais complicada. Nunca se falou tanto em “ser você mesmo”, mas nunca houve tanta gente moldando a própria vida para agradar uma plateia. Uma postagem que parece espontânea muitas vezes foi pensada para gerar aprovação. Uma opinião firme pode desaparecer assim que aparece a primeira crítica. Ser autêntico, hoje, também é saber segurar uma opinião. Nem tudo precisa virar comentário, indireta ou conteúdo. E, quando algo é publicado, seria bom que tivesse alguma ligação real com aquilo que a pessoa acredita.

Na marca pessoal, isso pesa muito. Autenticidade é um pilar porque impede que a pessoa vire uma versão fabricada de si mesma. Ela aparece na conduta, nas entregas, nas relações, na linguagem, na forma de se vestir e no modo como alguém ocupa os espaços. Quando existe uma distância muito grande entre o que alguém mostra e o que alguém vive, as pessoas notam. 

Muitas vezes, aquilo que alguém tenta esconder é justamente o que poderia diferenciá-lo. Uma sensibilidade maior pode virar escuta. Um humor particular pode criar vínculo. Uma trajetória fora do padrão pode trazer repertório. Uma firmeza mal interpretada pode revelar coragem. Uma preferência menos comum pode aproximar pessoas que também se sentiam deslocadas. Crescer também é aprender a usar melhor aquilo que já faz parte de nós.

O jogador de rugby neozelandês Richie McCaw foi perguntado como lidava com a vida pública e respondeu: “Bom, é fácil, porque o que você vê em público é exatamente o que eu sou na vida privada”. A frase é simples, mas diz muito. Em uma época em que tanta gente tenta parecer interessante, ser autêntico é recusar a tentação de se transformar em produto de aceitação fácil. É viver com mais honestidade, sem precisar forçar originalidade.

Clara Laface escreve para o BE News semanalmente,
com seus artigos publicados sempre às terças-feiras. 

Compartilhe:
TAGS

Leia também