“Bella Ciao, a cidade feliz”
“O homem foi mais além: decretou que só as sombras das árvores e dos guarda-sóis ficariam imunes de uma taxa, e as chamou de ‘sombras amigas’. E anunciou que o governo pagaria a todos que plantassem árvores frutíferas ou dispusessem cumbucas com frutas nos beirais das janelas para alimentar os passarinhos. De resto, deixou a cargo da nomeada comissão estabelecer regras de mobilidade, privilegiando pedestres, bicicletas, patinetes e os veículos coletivos”
Ninguém podia supor o que aconteceria naquela manhã nublada e barulhenta, em que os cidadãos foram convocados para uma assembleia.
Havia várias hipóteses a boca pequena, em se tratando de um governante imprevisível, cheio de novidades para alegria de alguns e revolta de muitos mais. Era uma cidade histérica, raivosa e sem perceber imensamente infeliz.
Já era quase uma multidão em volta do coreto da única praça que sobrara entre as sombras dos arranha-céus. Uns temiam que o excêntrico prefeito, apelidado de ‘prefeito de Dubai’, vendesse a praça, ainda que está contivesse apenas três chapéus-de-sol de folhas acinzentadas e grama artificial.
O alcalde, talvez atormentado com sua má saúde ou alarmado pelo futuro do seu neto recém-nascido, abriu a assembleia vaticinando que aquele seria um dia inesquecível para todos. Disse que tomou a decisão de proibir mais prédios altos, decretou o tombamento das casas que ainda tivessem jardins e nomeou uma comissão para replanejar a cidade, composta por um urbanista, um poeta, uma velhinha centenária, um jovem artista, uma mãe recente, uma criança de cinco anos e, para surpresa geral, um bêbado e um passarinho.
O autarca tinha boas razões: citou uma cidade estrangeira que entre o concreto e a flora optou pela segunda e fez sucesso. Lembrou Nantes, na França que, para revitalizar a cidade, deu posse de armazéns sem uso aos artistas. Determinou também que os bares tivessem obrigatoriamente mesas nas calçadas, como em Paris, e que todos os novos prédios tivessem varandas e estas ostentassem floreiras como Cartagena de Indias.
O homem foi mais além: decretou que só as sombras das árvores e dos guarda-sóis ficariam imunes de uma taxa, e as chamou de ‘sombras amigas’. E anunciou que o governo pagaria a todos que plantassem árvores frutíferas ou dispusessem cumbucas com frutas nos beirais das janelas para alimentar os passarinhos. De resto, deixou a cargo da nomeada comissão estabelecer regras de mobilidade, privilegiando pedestres, bicicletas, patinetes e os veículos coletivos.
Conclamou a todos a criarem galos para despertarem com o raiar do sol e caminharem no amanhecer. As crianças só iriam às escolas a partir das nove horas, onde brincariam bastante, depois fariam leituras coletivas e almoçariam para estudar até as quatro da tarde.
O governante, com os olhos voltados para sua alma, confessou ter sofrido uma crise de consciência. Condenou o que chamou de ‘minimalismo estético-urbano’, com edificações que espelhavam a ausência de alma na cidade.
Foi um alvoroço só! Uns aplaudiram e deram bravos de alegria. Outros, demonstrando egoísmo ou interesses prejudicados, berraram contra, chamando o homem de ‘o prefeito louco’.
Talvez tudo tenha sido apenas um sonho – ou uma alucinação. Mas a cidade mudou de nome por sugestão do senhorio, de origem italiana. Passou a se chamar Bella Ciao, conhecida mundialmente como a cidade feliz.