Brasil e China: oportunidades criadas devem ser aproveitadas
O ministro de Portos e Aeroportos, Tomé Franca, encerrou nessa quinta-feira, dia 27, em Xangai, quatro dias de reuniões com as maiores empresas de infraestrutura, logística e transporte marítimo da China. A agenda não se baseou em visitas de cortesia: envolveu a Corporação Estatal de Engenharia de Construção da China, a Corporação de Construção e Comunicação da China, a China Merchants Port Holdings, a Cofco, a Hutchison Ports, a Shanghai Dredging Company, a Administração da Aviação Civil da China e, no encerramento, a Cosco Shipping — uma das maiores operadoras de transporte marítimo e logística portuária do mundo. Cada uma dessas empresas tem projetos, capacidade de financiamento ou tecnologia de que o Brasil precisa. A questão que define o valor real da missão não é a qualidade das reuniões realizadas; é a qualidade das decisões que elas vão produzir nos meses seguintes.
O projeto apresentado pela Cosco ao Ministério de Portos e Aeroportos para desenvolver a infraestrutura ferroviária do Porto de Santos (SP) — novas linhas conectadas às malhas da Autoridade Portuária (APS) e do sistema Ferrovia Interna do Porto de Santos (Fips) e às da concessionária MRS — é o item da missão com maior potencial de impacto estrutural. A conexão ferroviária entre o complexo marítimo e o interior não funciona como deveria porque o acesso à região portuária está congestionado, mal coordenado com as operações de terminais e é insuficiente para o volume movimentado. Um projeto como esse pode reorganizar o fluxo ferroviário dentro do porto, de forma que reduza a pressão sobre o acesso rodoviário e aumente a participação do modal férreo no escoamento das exportações. Que a Cosco, que opera terminais de contêineres em dezenas de portos pelo mundo e tem interesse direto na eficiência do corredor logístico de Santos, traga esse projeto ao governo brasileiro é sinal de que a proposta tem lógica de negócio, não apenas de diplomacia comercial.
O acerto com o Novo Banco de Desenvolvimento (NBD), presidido por Dilma Rousseff, para que o Ministério de Portos e Aeroportos apresente projetos brasileiros de portos, aeroportos e hidrovias para avaliação de financiamento, é o elemento financeiro que pode viabilizar parte da agenda que a missão negociou. O Banco do Brics (como o NBD é conhecido) — instituição multilateral criada pelos países do bloco — tem custo de capital mais baixo do que fontes privadas e menor condicionalidade política do que bancos ocidentais de desenvolvimento. Para projetos de infraestrutura de longo prazo — exatamente o perfil dos empreendimentos envolvendo terminais portuários, hidrovias e aeroportos regionais, que o Brasil precisa ampliar —, o Banco do Brics pode ser uma alternativa de financiamento que complementa o BNDES e os mercados de debêntures incentivadas sem substituí-los. O que o Ministério precisará fazer nas próximas semanas é selecionar os projetos mais maduros da carteira — aqueles com estudos de viabilidade concluídos, licenciamento avançado e modelo de outorga definido — e submetê-los ao banco com a documentação técnica que o processo de análise exige.
A visita ao Porto de Baoshan, em Xangai, merece registro específico. Conhecer em funcionamento real os sistemas de automação aplicados à movimentação de cargas e à operação remota de equipamentos portuários é o tipo de aprendizado que relatórios técnicos não substituem. O Brasil já discute esses avanços. Ver a tecnologia funcionando em escala industrial num dos portos mais movimentados do mundo — com os desafios operacionais reais que ela enfrenta, e não apenas com os benefícios que os fabricantes prometem — é informação que a delegação brasileira deve trazer de volta de forma sistematizada, e não apenas como impressão de viagem.
A mensagem que o ministro Tomé Franca declarou ter transmitido ao encerrar a missão — “o Brasil está aberto ao investimento, tem projetos estruturados e quer parceiros de longo prazo” — é a mensagem certa. O que determinará se a China a recebe como convite sério ou como protocolo diplomático é o comportamento do governo brasileiro nos próximos meses: se o projeto ferroviário da Cosco para Santos avançar para estudo de viabilidade com cronograma definido, se os projetos submetidos ao Banco do Brics têm a maturidade técnica necessária para aprovação, e se os leilões anunciados para 2027 — os quatro terminais de contêineres discutidos na semana passada — chegarem ao mercado com os editais que o setor espera. Missão bem-executada, projetos atrasados: é o padrão que o Brasil precisa quebrar.