Carta a Ozires
“Eu escreveria hoje a Ozires. Diria que estava surpreso, envaidecido e emocionado com as palavras enviadas da altura de sua sabedoria. Diria que cartas assim mudam destinos e dão, muitas vezes, o ânimo que alguém precisa para galgar seu caminho. Diria, por fim, da admiração que sempre nutri por sua trajetória de sucesso, e o quanto era grato por ter-me dedicado seu rico tempo”
Chega um tempo em que recolhemos os cacos deixados pelo caminho. Um amigo perdido, uma decisão não tomada, um amor que se foi sem sabermos por quê. Ah, a burocracia do tempo nos faz, frequentemente, sermos grosseiros com a própria vida.
Entre tantos cacos espalhados, tropeço na lembrança da carta que não respondi e tenho o ímpeto de escrever agora, doze anos depois. Devia ser por volta de 2013 quando eu assumia novo cargo público e, mergulhado no turbilhão de expectativas e compromissos, recebi a correspondência que talvez mais tenha-me dado orgulho, pela importância do remetente e a pretensão que nunca tive.
Era uma carta do icônico Ozires Silva, augurando-me sucesso. Ele que, entre tantos vitoriosos feitos, fundou a que é hoje a terceira maior fabricante de aviões do planeta – a Embraer -, e que tudo começou quando, ainda jovem, foi desafiado ao lhe dizerem que o Brasil não era capaz de fabricar nem uma bicicleta. Na concretude da vida às vezes acontecem grandes conquistas.
Eu escreveria hoje a Ozires. Diria que estava surpreso, envaidecido e emocionado com as palavras enviadas da altura de sua sabedoria. Diria que cartas assim mudam destinos e dão, muitas vezes, o ânimo que alguém precisa para galgar seu caminho. Diria, por fim, da admiração que sempre nutri por sua trajetória de sucesso, e o quanto era grato por ter-me dedicado seu rico tempo.
Não lhe escrevo agora para não invadir o recôndito repouso de seus 94 anos. Certamente Ozires tem nestes dias o tempo para sobrevoar livremente na outra frequência, aquela sem preocupação da rotina e obrigações. A burocracia do tempo é atroz e, como lembrou Ferreira Gullar, só às vezes permite ser poeta. Ah, que frequência banal que nos priva da poesia e impede que possamos viver no universo dos desejos, dos sonhos , dos devaneios e das cartas amigas.
Viver a poesia não é necessariamente ser poeta, mas é sentir o bafejo do belo, a expressão do amor, e flutuar na reflexão da própria existência. É permitir brechas no insólito tempo que ocupamos com desimportâncias e acabamos deixando tanta coisa de valor para trás.
Em outros tempos sabíamos o quanto as cartas eram importantes quando as escrevíamos ou nos eram destinadas. Como a carta de Leopoldina a Pedro, que motivou o Império. Como a carta que escrevi na juventude e nunca soube se chegou à menina a quem um dia eu destinei meu coração.
Como levou um dia Kafka a se passar por Carteiro das Bonecas e dedicar-se a alegrar a pequena e desarvorada menina Elsi, lhe entregando cartas por ele escritas em nome da boneca Brígida, perdida na praça fria de Berlim.
Sei que o tempo tem duas verdades, a burocrática e a do sublime delírio. É este segundo estado que invejo. A vida é assim. Seu rigor poucas brechas abre à frequência em que brota a fantasia, como Kafka tocando o coração de uma criança.
Eu queria ao menos não sofrer tanto a soberba do tempo e ter sabido, em muitos momentos, desafiar a rotina, rebelar-me e ter a capacidade de discernir o que realmente importa, como uma carta, uma inesquecível carta recebida. Pois eu teria respondido a Ozires. Só me resta, publicamente, pedir perdão pelo atraso.