Celeridade e rigor na renovação da concessão da maior malha ferroviária do Brasil
A conclusão da proposta para a renovação antecipada da concessão da Ferrovia Centro-Atlântica (FCA), pelo Ministério dos Transportes, coloca o Brasil diante de uma escolha decisiva para o futuro de sua logística. Definindo o destino de uma malha com mais de 7,2 mil quilômetros de extensão cruzando o coração produtivo do País, o novo contrato com a concessionária VLI prevê investimentos de R$ 27,6 bilhões ao longo dos próximos 30 anos. No entanto, o avanço do texto para a Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) e para o Tribunal de Contas da União (TCU) ocorre sob uma severa pressão de calendário, dado que o vínculo atual vence no dia 27 de agosto. Diante desse cenário, o Estado brasileiro precisa agir com extrema agilidade para evitar a paralisia do setor, mas sem ceder à pressa cega, garantindo um escrutínio rigoroso de cada cláusula para que o interesse público e os investimentos no modal sejam plenamente assegurados.
Defender a celeridade desse processo é uma questão de sobrevivência econômica. Deixar a concessão da maior malha ferroviária do País exposta à insegurança jurídica de aditivos temporários afasta investidores e, ainda, congela o planejamento de longo prazo de cadeias produtivas inteiras que dependem dos trilhos para escoar safras e insumos industriais. Contudo, essa urgência não pode servir de pretexto para o afrouxamento da análise técnica. A complexidade da proposta — que envolve a devolução de mais de 3,1 mil quilômetros de trechos inativos ou deficitários em sete unidades da federação — exige que os órgãos de regulação e controle passem um pente fino nas obrigações financeiras e operacionais da concessionária antes da assinatura final.
O ponto central que exige atenção milimétrica das autoridades é a destinação dos R$ 4,2 bilhões previstos como indenização pela devolução desses ativos. Esse montante não pode sumir nos cofres gerais da União; ele precisa ser carimbado e revertido diretamente em novas políticas públicas para o modal ferroviário. O Ministério dos Transportes e a ANTT devem garantir que esses recursos alimentem o caixa do Governo para investimentos estatais em ferrovias de interesse social ou na viabilização de novos corredores por meio do regime de autorizações simplificadas. Da mesma forma, as obrigações da VLI de injetar R$ 23,4 bilhões na modernização da via permanente, no acesso ao Porto de Santos (SP) e na mitigação de conflitos urbanos em 46 municípios devem possuir metas anuais claras e penalidades severas em caso de descumprimento.
O redesenho da FCA em 2026 é a grande oportunidade para corrigir os erros das privatizações da década de 1990, que priorizaram o lucro imediato em detrimento da integração do território nacional. Exigir regras rígidas de interoperabilidade para permitir que outros operadores compartilhem os trilhos e, também, garantir a reserva de espaço para trens de passageiros são avanços históricos que não podem ser diluídos em negociações apressadas. O Governo Federal tem o dever de conduzir esse desfecho com rapidez para não travar o País, mas mantendo a firmeza técnica necessária para assegurar que cada centavo negociado se transforme em trilhos modernos, conectividade regional e desenvolvimento sustentável para a infraestrutura brasileira.