Cidades loucas
“A loucura não tem limites para cidades assim, como Chongqing, que provoca o labirinto do GPS com seu intrincado urbanismo a desafiar as três dimensões urbanas. Metrôs atravessam prédios nas alturas e intrincados viadutos parecem novelo de lã. Enquanto a maioria das cidades valoriza os rooftops dos edifícios como bares, essa cidade louca chinesa sobrepõe praças, ruas e estacionamentos, e nunca se sabe em que andar se está, no térreo ou no décimo segundo andar, e tudo depende de por qual lado da quadra se adentrou nessa miscelânea de concretos, vidros e jardins”
Adoro cidades loucas, todas elas. A loucura tem várias naturezas e as que eu gosto não são as que invadem as madrugadas com baladas alucinógenas e insanas. Gosto das cidades loucas de imaginação e ousadia, daquelas que não se contentam em ser o abrigo da vida, e que se fazem atraentes como uma mulher inteligente para conquistar.
Gosto dessas cidades loucas ou porque têm histórias ou porque inventam sabores a deliciar os lábios dos aeroportos. São cidades que valorizam o que têm, e se não têm, criam na loucura dos idealizadores que as habitam, ou ainda que são chamados a criar.
Algumas são quadros antigos, renascentistas, até medievais, expostos em galerias para viajar no tempo. Outras são terras perdidas que compartilham a natureza com a inspiração dos grilos e a aventura.
Mas há cidades distópicas, aquelas que, com rebeldia, transgridem os limites da imaginação e não se contentam em apaziguar os dias dos que nelas habitam. Lugares que viajam no futuro para brotar comodidades e emoção.
Para todas essas não há limites, e às vezes partem de decisões coletivas ou da insanidade criativa de alguém. Barcelona, por exemplo, que um dia teve sua planta desenhada como a trama de um tecido com o rigor catalão de não parar e teve o delírio de Gaudi, teve Miró, e juntou as cores num caleidoscópio nas telas e nas ruas. Uma capital do turismo, que ,de tanto sucesso, já não quer mais gente a delirar nas ramblas que se espraiam de Monte Serrat ao Mediterrâneo.
Por vezes rincões de deserto e miragens se transformam em alucinadas ilhas paradisíacas contrastando com torres a cutucarem o céu com petrodólares. Dubai criou até a natureza, com suas ilhas de palmeiras e ostentação.
Ninguém mais, porém, ostenta tanto quanto Mônaco, que fez da monárquica riqueza a passarela da fama olimpiana e inalcançável . Nenhuma cidade teve tanta pressa de progredir quanto Singapura, quanto Shangai.
O dinheiro fabrica sonhos coletivos quando se tem determinação e falta pudor para tanta ousadia. Se o futuro está à frente, não há porque não trazê-lo para o presente. Os chineses sabem o caminho. Shenzhen é hoje a referência desse tempo que o resto do mundo ainda não alcançou. Smart city, é habitada por humanos e robôs, que assumem tantas tarefas pelas ruas e liberam sua gente para usufruir o conforto da vida.
A loucura não tem limites para cidades assim, como Chongqing, que provoca o labirinto do GPS com seu intrincado urbanismo a desafiar as três dimensões urbanas. Metrôs atravessam prédios nas alturas e intrincados viadutos parecem novelo de lã. Enquanto a maioria das cidades valorizam os rooftops dos edifícios como bares, essa cidade louca chinesa sobrepõe praças, ruas e estacionamentos, e nunca se sabe em que andar se está, no térreo ou no décimo segundo andar, e tudo depende de por qual lado da quadra se adentrou nessa miscelânea de concretos, vidros e jardins.
Algumas cidades exercitam sua criatividade para baixo. Algumas levando à descoberta de mundos soterrados nos séculos. Outras levando para baixo artérias de mobilidade e conforto, como Tóquio, onde debaixo de um edifício pode-se apanhar um metrô, um trem, ou ainda simplesmente fazer supermercado.
Ah, quantas cidades loucas há por aí. O que todas têm em comum é a imaginação e a ousadia, que as torna únicas a atrair para si a libertação dos sonhos e o delírio do prazer. Em turismo há de se ter uma premissa: se não existe o que atrair, cria-se algo, ainda que uma lenda.
Como a italiana Verona, hoje visitada por meio milhão de turistas todos os anos, aflitos a pedir a sorte do amor esfregando a mão no seio direito de Julieta de bronze, perto da casa dos Capeletos, que nunca existiram e portanto só viveram o trágico amor da jovem com Romeu na louca imaginação de Shakespeare.