Como um super El Niño pode redesenhar os fluxos logísticos da América do Sul
Nos últimos anos, o setor marítimo já precisou lidar com desafios como as restrições de calado no Canal do Panamá, os impactos da crise no Mar Vermelho e diversas interrupções provocadas por eventos climáticos extremos. Um super El Niño poderá representar mais um teste à capacidade de adaptação das cadeias globais de comércio.
Quando se fala em El Niño, a atenção costuma se concentrar nos impactos climáticos. Agricultores observam as projeções de chuva, governos monitoram riscos de enchentes e a população acompanha previsões sobre secas e ondas de calor. Para a indústria marítima e portuária, porém, a questão mais relevante pode ser outra: como um evento climático extremo pode alterar fluxos logísticos, redistribuir cargas e testar a resiliência das cadeias de suprimentos em toda a América do Sul.
A possibilidade de um novo El Niño de grande intensidade vem sendo acompanhada com atenção por meteorologistas e operadores logísticos. Embora a intensidade final do fenômeno ainda seja incerta, a experiência recente demonstra que seus efeitos podem se estender muito além das regiões diretamente atingidas. Em uma economia cada vez mais integrada por rotas marítimas, corredores rodoviários, ferrovias e hidrovias, uma interrupção localizada pode gerar consequências que se propagam por milhares de quilômetros.
A Amazônia oferece um dos exemplos mais claros dessa dinâmica. Durante a severa estiagem observada entre 2023 e 2024, os níveis do Rio Negro e de outros rios amazônicos atingiram patamares historicamente baixos. A redução dos calados disponíveis dificultou a navegação em trechos estratégicos da região e afetou diretamente o abastecimento da Zona Franca de Manaus, um dos mais importantes polos industriais da América Latina.
Embora frequentemente associado à economia regional, o Porto de Manaus desempenha papel relevante em cadeias globais de suprimento. Componentes eletrônicos, motocicletas, eletrodomésticos e diversos insumos industriais dependem da navegabilidade dos rios amazônicos para chegar às fábricas ou alcançar os mercados consumidores.
Durante a crise, operadores logísticos precisaram adotar medidas extraordinárias para manter os fluxos de carga. Operações de transbordo foram ampliadas, embarcações passaram a navegar com restrições de carga e estruturas flutuantes foram deslocadas para localidades como Itacoatiara, para permitir a continuidade das operações. O episódio demonstrou como um problema hidrológico regional pode rapidamente se transformar em um desafio logístico nacional.
Caso um novo período de seca severa se confirme, os impactos poderão novamente ultrapassar os limites da Amazônia.
Portos como Vila do Conde tendem a assumir papel ainda mais relevante como pontos de apoio às operações destinadas à região Norte. Ao mesmo tempo, terminais estrategicamente posicionados no Nordeste, como Suape (PE) e Pecém (CE), podem registrar aumento temporário da permanência de contêineres e equipamentos que aguardam condições adequadas para seguir viagem até Manaus.
O resultado pode ser uma combinação de maior ocupação de pátios, necessidade de reposicionamento de contêineres vazios e ajustes nos serviços feeder que conectam diferentes regiões da costa brasileira.
Enquanto o Norte enfrenta o risco de estiagem, o Sul da América do Sul convive com uma ameaça oposta. Historicamente, eventos intensos de El Niño estão associados ao aumento das precipitações em partes do Sul do Brasil, no Uruguai e na região da Bacia do Prata. As enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul em 2024 mostraram como eventos hidrológicos extremos podem comprometer corredores logísticos inteiros, afetando rodovias, ferrovias, centros de distribuição e instalações de apoio às operações portuárias.
Os impactos sobre os portos nem sempre ocorrem diretamente no cais. Em muitos casos, a maior vulnerabilidade encontra-se nos acessos terrestres e na infraestrutura que conecta os terminais aos centros produtores e consumidores.
Nesse contexto, os complexos portuários de Rio Grande (RS) e Itajaí (SC) merecem atenção especial. No Vale do Itajaí, episódios de chuva intensa historicamente elevaram os níveis do Rio Itajaí-Açu, aumentando o risco de restrições operacionais e dificuldades de acesso. Em Rio Grande, o desafio pode estar na preservação da conectividade logística com importantes regiões produtoras do Sul do continente.
Os possíveis efeitos de um super El Niño também não se limitam ao Brasil. Peru e Equador figuram historicamente entre os países mais expostos aos impactos severos do fenômeno. Danos a rodovias, pontes e instalações logísticas podem afetar cadeias de exportação relevantes para o comércio internacional. Mais ao sul, Argentina e Uruguai também podem enfrentar interrupções decorrentes de precipitações acima da média e dificuldades em importantes corredores de transporte.
Para armadores, operadores portuários, embarcadores e gestores logísticos, a principal lição é que eventos climáticos extremos já não podem ser analisados apenas sob uma ótica local. A crescente integração das cadeias de suprimento faz com que uma restrição de navegação na Amazônia, uma enchente no Sul do Brasil ou danos à infraestrutura andina produzam efeitos que se espalham por toda a rede logística regional.
Nos últimos anos, o setor marítimo já precisou lidar com desafios como as restrições de calado no Canal do Panamá, os impactos da crise no Mar Vermelho e diversas interrupções provocadas por eventos climáticos extremos. Um super El Niño poderá representar mais um teste à capacidade de adaptação das cadeias globais de comércio.
Nesse cenário, a capacidade de antecipar riscos, redistribuir cargas, reposicionar equipamentos, utilizar portos alternativos e ajustar rotas poderá se tornar tão importante quanto a própria infraestrutura física.
Se as projeções mais severas vierem a se confirmar, o maior impacto de um super El Niño talvez não seja medido em índices pluviométricos ou níveis de rios. Ele poderá ser percebido na forma como cargas, navios e cadeias de suprimento serão obrigados a se adaptar a uma nova realidade operacional em toda a América do Sul. Mais do que um fenômeno climático, um super El Niño, ou El Niño Godzilla como vem sendo chamado, poderá se tornar um importante teste de resiliência para a logística e o comércio do continente.
Valter Branco escreve semanalmente para o BE News, com seus textos publicados às segundas-feiras.