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Selma Culturati

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Compliance para PMEs: quando crescer também exige organização

Compliance para PMEs não significa trocar proximidade por burocracia, nem agilidade por controles excessivos. O desafio é preservar suas características sem permitir que se transformem em informalidade, decisões personalizadas ou riscos invisíveis.

As relações de confiança quase sempre fundamentam a longevidade das PMEs (pequenas e médias empresas), pois é comum manterem relacionamentos de muitos anos com fornecedores, com colaboradores que conhecem a operação, se apoiarem no sócio que resolve os problemas e no cliente que atendem há um bom tempo e que já conhecem suas demandas. Essa proximidade ajuda não apenas na velocidade das decisões, mas também, se torna a primeira mola que impulsiona o negócio.

Com o crescimento, a empresa passa por uma ruptura em que apenas a confiança por si se descola do desenvolvimento do negócio, porque chegam novos clientes que a empresa já não conhece tão bem quanto os mais antigos, surgem novas oportunidades que demandam uma ampliação da equipe, ou novos contratos mais relevantes e mais exigentes. Quais são os critérios usados pela empresa para tomar decisões? A conversa que no passado resolvia tudo, agora exige referências mais claras e minimamente padronizadas. Não é mais possível confiar apenas na memória ou sempre contar com a presença dos sócios ou de antigos colaboradores.

Nesse ponto, o compliance entra como uma forma de preservar a identidade da empresa enquanto ela cresce. A complexidade destes parâmetros é certamente bem menor que a das grandes organizações, em que há várias camadas de decisões e de cargos e funções muito bem desenhados.

O contingente de PMEs em nossa economia é bastante expressivo, gerando números superlativos. E a atuação dessas empresas movimenta uma impressionante cadeia de valor. O resultado é a injeção de recursos na economia, tanto por meio da renda gerada, quanto pela arrecadação de impostos diretos e indiretos decorrentes da atividade econômica.

Porém, como também normalmente trabalham com estruturas enxutas, o acúmulo de funções é quase inevitável. O mesmo profissional que faz uma cotação ou compra, confere a entrega, aprova o pagamento e mantém o relacionamento com o fornecedor. Neste exemplo há uma completa falta de segregação de funções que deixa a empresa exposta a diversos riscos que podem ir desde o aspecto financeiro e/ou tributário, até o reputacional. O sócio que conquista o cliente também negocia preços, concede descontos e acompanha o recebimento.

Se a sobreposição de tarefas e de funções cria a agilidade necessária nas tomadas de decisões, também reduz perigosamente os espaços de conferência. Esse comportamento pode levar a empresa a erros que não começam como algo planejado. Ao contrário, seu início se dá numa exceção aparentemente inofensiva ou vem da aprovação feita com pressa, que se converte na informação de que foi aceita como uma ordem inquestionável, gerando uma exposição questionável. Este é o momento em que o compliance se torna uma importante resposta, porque por exemplo, entre suas regras está a da segregação de funções, que estabelece os limites na medida, quando define quem contrata, quem aprova, quem paga e em quais situações uma segunda análise poderia identificar os pontos mais sensíveis e criaria controles compatíveis com sua realidade.

Também muitas PMEs não têm regras escritas porque sua cultura foi construída na convivência e com a filosofia do “sempre foi assim” – e com isso, voltamos ao risco do “inquestionável”. Assim, imaginemos como fica o ambiente da empresa quando se depara com novos colaboradores que trazem novas práticas de mercado, para um universo com hábitos bastante arraigados e já desatualizados em relação aos tempos atuais. É nesse espaço entre o que parece claro e o que realmente foi compreendido que aparecem os conflitos. 

De outro lado, nem toda exceção representa uma irregularidade. As decisões relevantes precisam ser compreensíveis, justificáveis e, quando necessário, registradas; pois, um presente oferecido por um fornecedor pode ser visto como gentileza ou tentativa de influência; ou a contratação de um familiar pode parecer natural, mas provocar dúvidas sobre favorecimento; ainda, um desconto concedido a um cliente próximo pode ser justificável, embora se torne difícil de explicar quando não existem critérios. O risco não está apenas em fazer algo errado, mas também em não conseguir demonstrar por qual motivo determinada escolha foi feita.

Para as empresas que respeitam as práticas de compliance, o acesso a cadeias de fornecimento mais exigentes, licitações, crédito, investimentos e contratos com organizações maiores será amplamente facilitado, garantindo que o compliance atue não apenas de forma reguladora ou corretiva, mas também como a chave que abre muitas portas. 

Isso não significa copiar o programa de uma grande corporação. Um código extenso, escrito em linguagem jurídica e distante da operação, pode atender apenas e tão somente a uma formalidade, sem produzir qualquer mudança.

Uma PME pode começar por seus riscos mais concretos: movimentações financeiras, gestão tributária, contratação de fornecedores, relações com o poder público, conflitos de interesses, condições de trabalho e proteção de dados. Uma orientação de conduta clara, critérios de aprovação, contratos organizados, registros financeiros confiáveis e um espaço seguro para dúvidas, podem ser mais efetivos do que um programa sofisticado que ninguém conhece.

Seu espaço de escuta merece atenção especial. Em empresas menores, todos se conhecem. Isso aproxima as pessoas, mas pode tornar algumas conversas mais difíceis. Questionar uma decisão do proprietário ou apontar um conflito envolvendo alguém próximo à direção, pode exigir uma coragem desproporcional ao tamanho da empresa.

Compliance para PMEs não significa trocar proximidade por burocracia, nem agilidade por controles excessivos. O desafio é preservar suas características sem permitir que se transformem em informalidade, decisões personalizadas ou riscos invisíveis.

A confiança continuará sendo uma das maiores forças dos pequenos negócios. Mas se torna mais consistente quando encontra critérios, responsabilidades e, principalmente, transparência. Organizar a empresa é evitar que o futuro do negócio dependa exclusivamente da memória das pessoas que hoje estão no negócio.

Talvez seja essa a principal contribuição do compliance para uma PME: permitir que ela cresça sem se afastar de seus valores e sem descobrir tarde demais que aquilo que parecia pequeno já se tornou um grande risco.

Observação: 

Fontes e Referências: Fontes: Sebrae (2025–2026), Panorama do Emprego nas MPEs e Ministério do Trabalho e Emprego — RAIS 2024.

Seguem os links de acesso:

  1. Sebrae — Pequenos negócios somam 24 milhões de empresas ativas
    Acessar a publicação do Sebrae 
  2. Sebrae — Panorama do emprego nas micro e pequenas empresas
    Acessar o Panorama do Emprego nas MPEs 
  3. Sebrae — Os pequenos que movimentam a economia e transformam o Brasil
    Acessar a publicação do Sebrae 
  4. Sebrae — MPEs respondem por quase 80% do saldo de empregos desde 2023
    Acessar a análise do Sebrae

A coluna Papo de Compliance, da economista Selma Culturati Vasquez, é publicada semanalmente no BE News. Contato pelo e-mail: compliance@grupobrasilexport.com.br.

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