Cuidado com o que você chama de posicionamento profissional
Só que autoridade não é autodeclarada. O reconhecimento que torna alguém especialista surge quando clientes, colegas e parceiros passam a associar o seu nome a um tema. E passam a repeti-lo quando você não está na sala.
O mercado está cada vez mais competitivo e complexo. Se há alguns anos as competências técnicas eram o grande diferencial, hoje não basta ser bom no que faz. Liderança, capacidade de influenciar, pensamento analítico, pensamento crítico, adaptabilidade e capacidade de desenvolver novas habilidades estão entre os atributos que serão mais valorizados em um futuro mais próximo do que se imagina. E, no meio dessas mudanças, há uma que já influencia tudo isso há muito tempo e que tem se tornado cada vez mais parte do cotidiano: não basta ser, é preciso mostrar que é. E o mercado precisa ter essa leitura.
Muito se fala de posicionamento profissional, mas de maneira genérica, como se uma única ação fosse a grande responsável pela autoridade percebida e pelo valor entregue. A construção da lembrança que vem à mente das pessoas quando seu nome é citado parte da estruturação de uma estratégia e de um conjunto de ações alinhadas aos seus objetivos, personalidade, valores inegociáveis, concorrentes (internos e externos), networking ativo e mercado de atuação, entre outros.
Por conta da banalização do termo, cada vez mais profissionais entram em um looping que eu chamo de gap de percepção. São muitos, dentro de uma mesma área, cujos diferenciais você não consegue identificar, porque usam uma estratégia batida só porque deu certo com alguém. Algo que só tende a piorar com o crescimento do uso da IA. Não faltam exemplos do que não fazer, e eles não caberiam no número de caracteres que tenho disponíveis semanalmente neste espaço. Por isso, resolvi trazer aqui alguns dos mais usuais. Será que você comete algum deles?
Confundir senioridade com autoridade – o profissional passou a carreira acumulando diplomas e altos cargos e acredita que isso é suficiente para que o mercado o leia como autoridade na sua área. Na maior parte das vezes, negligenciou o uso do marketing pessoal, a construção de relações genuínas e a expansão dos seus horizontes para além da bolha habitual. Construiu senioridade dentro de uma empresa e supôs que ela circulava fora dela. Não circula. A realidade bate à porta quando a empresa lhe pede o crachá.
Fora do seu círculo direto de trabalho, quantas pessoas conseguiriam dizer no que você é bom?
Ter opinião sobre tudo – quando o profissional percebe que não é lembrado, a primeira reação costuma ser aumentar o volume. Comentar tudo, opinar sobre tudo, estar em toda pauta. A linha entre ser uma referência que as pessoas param para ouvir e ser um comentarista de assuntos aleatórios é tênue. E o custo de cruzá-la é a diluição da própria credibilidade. Quem fala de tudo não é lembrado por nada. Por isso é preciso ter enraizado o que vale a pena defender e uma tese própria. O diferencial aqui é não delegar o seu pensamento para a IA.
Nos seus últimos dez posicionamentos públicos, quantos você teria assumido se ninguém tivesse pedido?
Trocar de discurso a cada onda – outra tentativa de compensação: se não sou lembrado, vou aderir ao que já está sendo lembrado. Uma marca, pessoal ou profissional, tem como base a coerência entre o que se diz e o que se faz. Todos têm o direito de apoiar ou rejeitar qualquer tema. O que não se pode é defender algo como valor inegociável e abandoná-lo na primeira mudança de cenário político, econômico ou comportamental. Isso mostra que os inegociáveis nada mais eram do que condições de mercado.
O que você defendia publicamente há três anos e não defende mais? O que mudou: o dado ou a conveniência?
Falar de si em vez de falar a partir de si: Há quem exagere nas autorreferências e queira se tornar referência em determinada área, sem antes construir a base que sustente o nome quando ele começar a circular. Só que autoridade não é autodeclarada. O reconhecimento que torna alguém especialista surge quando clientes, colegas e parceiros passam a associar o seu nome a um tema. E passam a repeti-lo quando você não está na sala.
Se você parasse de falar de si por seis meses, alguém falaria por você?
Um posicionamento sustentável começa pelo diagnóstico: onde está a distância, qual o tamanho dela e o que a mantém aberta. Só depois disso é que se decide o que dizer, onde e com que frequência e o que não se negocia para chegar lá, inclusive fora dos muros da empresa. Posicionamento que exige a destruição da sua vida pessoal é performance com prazo de validade.
Inspire-se em pessoas, modele comportamentos, mas o seu posicionamento não deve pertencer a ninguém nem ser igual ao de tantos por aí. Posicionar-se é ter a coragem de desagradar. Sem ser desagradável, claro.
Clara Laface escreve para o BE News semanalmente, com seus artigos publicados sempre às terças-feiras.