Da teoria à obra: o papel das finanças sustentáveis na nova infraestrutura do Mercosul
A janela para alinhar desenho contratual, indicadores ESG e fontes de financiamento verde está aberta agora, e não em um futuro abstrato.
Nos últimos artigos, tivemos a oportunidade de analisar como o recém celebrado acordo UE-Mercosul reposiciona a infraestrutura como eixo da transição sustentável e como o modelo paraguaio de Maquila revela, na prática, a força de um território que decide se reinventar industrialmente.
Agora, o debate avança para uma questão tão simples quanto incômoda: não basta sabermos o que precisa ser feito; é preciso encarar de frente como financiar, em escala, a transformação sustentável da infraestrutura no nosso país. Não por acaso, finanças sustentáveis e dívida verde se consolidaram como um dos temas mais falados da agenda global de 2026, em especial para países emergentes que, como o Brasil, combinam necessidades gigantescas de investimento em infraestrutura com ativos ambientais de valor estratégico.
Quando olhamos para estradas, ferrovias, portos, linhas de transmissão, redes de água e saneamento, sabemos que ainda carregamos um déficit histórico de infraestrutura que limita produtividade, encarece a logística e aprofunda desigualdades. Em 2025, por exemplo, estimativas apontam para cerca de R$ 278 bilhões investidos em infraestrutura no Brasil, algo ainda aquém dos 4% do PIB considerados necessários para reduzir o “gap” acumulado e colocar o país em trajetória de convergência com economias comparáveis.
Ao mesmo tempo, esses mesmos ativos precisarão ser redesenhados à luz da transição energética, da economia circular e da resiliência climática, sob pena de se tornarem rapidamente obsoletos.
É aqui que os instrumentos de finanças sustentáveis – como títulos verdes, sustainability-linked bonds, debêntures incentivadas rotuladas como verdes e modelos que combinam diferentes fontes e perfis de capital, público e privado, muitas vezes envolvendo bancos públicos, instituições multilaterais e investidores privados – deixam de ser um “tema de nicho” e passam a ocupar o centro da estratégia de desenvolvimento.
De acordo com relatório recente da Climate Bonds Initiative, o mercado brasileiro de dívida sustentável (abrangendo títulos verdes, sociais, sustentáveis e vinculados à sustentabilidade) já superou a marca de dezenas de bilhões de dólares emitidos, com destaque para aproximadamente USD 30 bilhões em títulos verdes até meados de 2025, o que coloca o Brasil como o maior emissor da América Latina.
Ao mesmo tempo, observa-se que o Estado começa a usar de forma mais estratégica a sua própria capacidade de risco para destravar investimentos privados em infraestrutura verde, combinando recursos públicos e privados em estruturas de financiamento misto, muitas vezes com mecanismos de proteção cambial e apoio qualificado à preparação de projetos.
Bancos multilaterais, como o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), também têm ampliado a sua atuação nesse campo: em 2025, o BID lançou uma linha de até USD 1 bilhão voltada a governos locais da América Latina para apoiar projetos de infraestrutura urbana e serviços públicos sustentáveis e participou, junto com outros parceiros, de um instrumento de até USD 1 bilhão para financiar infraestrutura resiliente na região amazônica. São iniciativas que, em conjunto, indicam uma direção clara: o capital internacional está disponível, mas exige projetos bem estruturados, compromissos robustos de transparência e alinhamento a metas climáticas.
Na prática, isso significa viabilizar ferrovias pensadas desde o início para reduzir emissões de transporte de cargas, rodovias concedidas com metas socioambientais claras, sistemas de transmissão preparados para integrar grandes volumes de energia renovável e obras de adaptação climática em cidades vulneráveis.
Em paralelo, a carteira de concessões prevista para 2026 – apresentada pelo governo federal e pelo Ministério dos Transportes – aponta para a realização de 21 leilões de infraestrutura, entre rodovias e ferrovias, com potencial de mobilizar algo em torno de R$ 800 bilhões em investimentos ao longo dos contratos, consolidando o que vem sendo descrito como a maior carteira da história recente.
A Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT), por sua vez, destacou que a nova Política Nacional de Concessões, lançada em 2025, amplia essa carteira com foco em segurança viária, desempenho ambiental e inovação, o que abre espaço para condicionar parte dessas outorgas e CAPEX a metas ESG.
No setor portuário e aeroportuário, o Ministério de Portos e Aeroportos apresentou, em 2025, uma carteira de cerca de R$ 20 bilhões em investimentos até 2026 apenas em projetos portuários, envolvendo arrendamentos de terminais e autorizações para terminais de uso privado. Em paralelo, o governo federal divulgou a maior carteira de leilões portuários já estruturada, com dezenas de ativos prontos ou em preparação, e vem anunciando novos investimentos em aeroportos regionais e grandes hubs estratégicos, com previsão de valores que superam R$ 9 bilhões em melhorias de infraestrutura até meados de 2026.
Tudo isso reforça que a janela para alinhar desenho contratual, indicadores ESG e fontes de financiamento verde está aberta agora, e não em um futuro abstrato.
Porém, essa oportunidade só se concretiza se formos capazes de apresentar uma carteira sólida de projetos viáveis do ponto de vista técnico, econômico e socioambiental, com governança robusta, critérios de sustentabilidade claros e métricas confiáveis de impacto.
Em outras palavras: o desafio não é apenas emitir títulos verdes, mas garantir que cada real captado se traduza em infraestrutura que, de fato, reduza emissões, aumente a resiliência e gere benefícios sociais tangíveis. Isso exige capacidade técnica dentro do Estado e das empresas, integração entre planejamento setorial e planos climáticos, e uma cultura de transparência que permita que investidores acompanhem, em tempo real, se os resultados prometidos estão sendo entregues.
Nessa jornada, Brasil e demais países do Mercosul têm muito a ensinar e a aprender entre si. A agilidade regulatória paraguaia, a sofisticação financeira brasileira, a visão de integração com a Europa e a força da sociobioeconomia amazônica podem compor um mosaico virtuoso, em que a infraestrutura deixa de ser apenas obra física e passa a ser, também, instrumento de conexão entre capital global e soluções concretas de desenvolvimento sustentável.
Que possamos, então, transformar títulos, taxonomias e acordos em pontes, trilhos e redes que sustentem, de forma duradoura, a transição para uma economia mais justa, resiliente e alinhada aos limites do planeta.
João Eduardo de Villemor Amaral Ayres e Rebecca Alonso Nascimento escrevem quinzenalmente para o BE News. Seus textos são publicados às quartas-feiras.