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Cristina Wadner

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Das correntes invisíveis ao mar aberto: filosofia, direito e a liberdade feminina

O mar sempre soube guardar segredos. Nas suas águas profundas repousam histórias de navegadores audazes, de rotas que desafiaram o impossível, de coragem que não reconheceu fronteiras. E de vozes ausentes que, por séculos, foram silenciadas antes mesmo de chegarem à beira do cais. Hoje, 8 de março, é dia de contemplar esse oceano imenso que é a trajetória feminina: de onde viemos, o que nos foi negado e, sobretudo, o quanto já conquistamos.

Para compreender o presente, é preciso mergulhar no passado. Aristóteles, um dos pilares do pensamento ocidental, afirmou que as mulheres eram intelectualmente inferiores aos homens. Para ele, a mulher raciocina, sim, mas sua razão seria naturalmente subordinada à do homem. Para o filósofo, a mulher possuía a parte deliberativa da alma, mas sem autoridade; um ser incompleto, governado pela emoção e incapaz de exercer o comando. Dois milênios e meio depois, essa herança filosófica ainda ecoa em setores inteiros da economia global.

O mar é um deles

Essas premissas não ficaram confinadas às páginas. Elas atravessaram séculos, foram incorporadas por teólogos medievais como Tomás de Aquino, codificadas em leis, repetidas em púlpitos e tribunais, e transformadas em verdades tão naturalizadas que muitas mulheres acabaram por acreditar nelas sobre si mesmas. O que nasce como argumento filosófico torna-se, com o tempo, uma estrutura social que molda destinos.

O custo dessas premissas foi imensurável. Quando se decreta que a vocação natural da mulher é o lar e a criação dos filhos, ao cultivar e treinar somente essas habilidades, dentre tantas outras que carregamos, não se está apenas limitando uma escolha. Está-se extinguindo, antes de nascer, incontáveis possibilidades. Quantas navegadoras jamais pisaram num convés? Quantas juristas nunca puderam defender uma causa? Quantas escritoras, engenheiras, filósofas, capitães de mar e guerra foram desviadas de seu próprio potencial por uma ideia forjada há mais de dois mil anos?

Não se trata de diminuir o ato de cuidar que é sagrado, e as mulheres que escolhem dedicar-se à família o fazem com uma grandeza que merece todo respeito. O problema sempre foi a ausência de escolha. A âncora não era voluntária: era imposta. E impedir que alguém desenvolva plenamente suas capacidades intelectuais e profissionais não é apenas uma injustiça individual; é um empobrecimento coletivo da humanidade, na exata acepção da palavra.

Observo esse percurso histórico a partir de um lugar que, não por acaso, guarda uma poderosa simbologia: o direito marítimo. Poucas áreas jurídicas são tão masculinizadas em sua origem quanto aquela que regula as relações sobre as águas. Por séculos, esse era um universo impensável para mulheres. O mar, afinal, sempre foi território de homens.

E, no entanto, estamos aqui. Advogadas, comandantes de navios, práticas de pilotagem, oficiais de náutica, engenheiras navais, trabalhadoras portuárias, operadoras de terminal, agentes marítimas, despachantes aduaneiras, executivas do setor de logística, juízas, árbitras, professoras e pesquisadoras que atuam na complexa teia que governa os mares; do convés à sala de audiências, do porto à sala de máquinas. Nossa presença nesses espaços não é apenas uma conquista pessoal; é a refutação viva de uma premissa filosófica que durou mais de dois mil anos. 

O 8 de março não é apenas um dia de celebração; é um exercício de memória e de responsabilidade. Celebrar significa honrar as que vieram antes e lembrar que essa transformação ainda não terminou. As premissas aristotélicas foram refutadas pela ciência e pela filosofia contemporâneas, mas suas reverberações ainda ecoam em salários desiguais, em salas de diretoria sem diversidade, em tribunais que subestimam vozes femininas, em famílias que ainda direcionam meninas apenas para o cuidado e não para o sonho.

O mar é vasto, e o horizonte, por definição, não tem fim. O que as mulheres de hoje estão fazendo em cada área do conhecimento, em cada profissão que um dia lhes foi negada, em cada espaço onde sua presença ainda causa estranheza, é navegar. Navegar com a consciência de que as correntes que tentaram nos deter não foram da natureza: foram da história. E a história, ao contrário do que se pensava, nós também escrevemos.

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