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Luiz Dias Guimarães

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De lobos e raposas

“Se é fato que a arte imita a vida, no que acredito, há de se manter as barbas de molho, especialmente Chapeuzinho Vermelho e todas as outras crianças que já perderam o sono temendo lobos e raposas”

Não, não precisamos ressuscitar lobos. Já os temos com fartura por aqui! Foi o que pensei tão logo soube que uma startup de biotecnologia anunciara o nascimento de três lobos-terríveis, espécie extinta há mais de dez séculos.

Nem a ciência limita a ousadia de romper os limites da natureza. A empresa captou 2,5 bilhões de dólares para promover o milagre divulgado com tanto alarido. Mas não foram necessários mais de dois dias para a comunidade científica questionar o feito. De fato, fecundar traços de fósseis do primitivo animal em óvulos de lobo-cinzento não gera a volta do que se foi um dia.

A experiência lembrou-me Dolly, a ovelha clonada. E outras tantas aventuras que só a ética pode conter. Melhor empregar os esforços na preservação do que ainda resiste à sanha do tempo como o próprio lobo-cinzento, originário da era glacial.

Não me atrevo analisar o experimento, mas não me furtei de fuçar no Google sobre esse animal que há muito apavora as madrugadas infantís. E para minha surpresa, constato que os lobos, de variados ramos, não comem as vovozinhas, tampouco fazem dupla com vampiros.

Pelo menos esses de quatro patas que ainda resistem por aí à sanha daqueles que acreditam em tantas estórias. Foi assim que na América do Norte, no século XIX, pagavam-se cinco dólares por lobo-cinzento abatido. E quem salvasse alguma presa de sua armadilha, era multado em 300 dólares. Milhares foram mortos.

Na verdade, não se tem registro de humanos vitimados por lobos, só renas e cervos, para desespero do Papai Noel. Hoje atribui-se a lobos qualidades invejáveis. Vivem em alcateia, bandos de cinco a dez, pois valorizam e prestigiam a família. Diz-se que são seres muito inteligentes, mais do que seus primos cachorros. Conservadores, nutrem valores e têm refinada noção de organização social.

Há os lobos alfa, que lideram os grupos. O macho é como o Rei Leão e na sua ausência o bando obedece à sua esposa, única por toda a vida, normalmente dedicada a cuidar das crias do bando, independentemente de serem filhotes do casal alfa. Na hierarquia há também os lobos beta, segundos no escalão, como espécie de nobres ou ministros. Por fim, os lobos ômega, os serviçais do grupo, não dotados de virtudes físicas, e destinados às tarefas mais desprezíveis, o que não os impede de igualmente serem protegidos pelos alfas. Afinal, a espécie é unida, ainda que haja diferenças no vigor e na capacidade de caçar noite adentro o que alimenta a prole.

Ao ler tanto sobre essa faceta do mundo animal, deparei-me também com as raposas. Sim, as primas raposas, do gênero canídeo como os lobos. O parentesco é expresso em algumas semelhanças, a ponto de no Brasil termos a raposa do campo, que nem raposa é, vez que pertence ao mesmo ramo dos lobos e dos cachorros que aparentemente destes derivaram.

Se é fato que a arte imita a vida, no que acredito, há de se manter as barbas de molho, especialmente Chapeuzinho Vermelho e todas as outras crianças que já perderam o sono temendo lobos e raposas. Não só no Hemisfério Norte, onde há lobos-cinzentos grandões de pelo extenso, mas também aqui. Afinal nossa pródiga natureza nos destinou raposas do campo, cachorros do mato e lobos-guará, aqueles que vivem especialmente nos cerrados como o Distrito Federal e outros estados de bioma aparentemente rasteiro.

O lobo-guará não resistiu à nota de 200 reais, mas há de sobreviver, ainda que mantenhamos nossas reservas quanto à sua natureza farta de lendas e surpresas. É, efetivamente, não precisamos que recriem espécies, já as temos com farturas nos campos, nas ruas e às vezes no abrigo dos nossos sonhos.

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