Depois de Maduro: os primeiros 100 dias e a encruzilhada histórica da Venezuela
Por Eduardo Platon
Executivo de Finanças e especialista em Inovação e Inteligência Artificial
Durante mais de duas décadas, a Venezuela não foi governada: foi administrada como um território capturado, onde a soberania popular foi substituída pela lealdade forçada, e a riqueza nacional (…) passou a servir à sobrevivência de uma elite político-militar associada a redes ilícitas transnacionais
A remoção de Nicolás Maduro do poder pelos Estados Unidos, enquadrando-o como chefe de um narco-Estado que sequestrou instituições, corrompeu eleições e submeteu a Suprema Corte e o Exército Bolivariano a uma lógica criminal, não representa apenas o colapso de um regime. Representa o fim de um modelo de poder.
O colapso desse sistema inevitavelmente recoloca em pauta os ativos estratégicos do país, mas a verdadeira disputa não será apenas por recursos. Será pela alma institucional da Venezuela. Os primeiros 100 dias após Maduro definirão se o país entrará num ciclo de reconstrução soberana ou se apenas trocará um colapso organizado por um caos improvisado. Abaixo, três cenários possíveis — não como previsões fechadas, mas como horizontes estratégicos.
Cenário 1 – Transição tutelada e estabilização emergencial (o cenário pragmático)
A – Social: Nos primeiros dias, há alívio psicológico coletivo. A queda do regime rompe o medo estrutural. Exilados começam a planejar retorno, presos políticos são libertados e organizações civis reaparecem. Entretanto, a crise humanitária persiste. Falta energia, alimentos, medicamentos e confiança. A sociedade entra num estado de esperança cautelosa, com risco de frustração rápida se resultados não forem visíveis.
B – Econômico: Os EUA e aliados suspendem parcialmente sanções, criando um regime temporário de exceções humanitárias e energéticas. A PDVSA entra sob administração técnica internacional provisória. Fluxos de ajuda emergencial chegam, mas o capital privado permanece em observação. O país vive um “respiro econômico”, não uma recuperação real.
C – Político: Forma-se um governo de transição com figuras civis internas, monitorado de perto por atores externos. Há estabilidade institucional mínima, mas baixa legitimidade popular inicial. O risco central é a dependência excessiva de tutores internacionais, atrasando a construção de autoridade interna genuína.
D – Geopolítico: A Venezuela retorna ao eixo ocidental, reduzindo drasticamente a influência de Rússia, Irã e grupos não estatais. América Latina observa com cautela, dividida entre apoio silencioso e temor de precedentes.
Resultado dos 100 dias: estabilidade frágil, mas funcional. O relógio da reconstrução começa a rodar.
Cenário 2 – Vácuo de poder e disputa interna (o cenário de risco)
A – Social: A queda do regime não vem acompanhada de uma autoridade clara. Setores armados remanescentes, milícias e fragmentos do aparato bolivariano disputam território e influência. A população, exausta, entra num estado de desorientação social, com protestos espontâneos e conflitos localizados.
B – Econômico: A produção de petróleo cai temporariamente devido a sabotagens, greves e indefinições administrativas. O mercado negro ressurge com força. A ajuda internacional enfrenta dificuldades logísticas e políticas. O custo humano aumenta nos primeiros meses.
C – Político: A oposição fragmenta-se. Antigos aliados se acusam mutuamente. Falta consenso sobre o modelo institucional pós-chavismo: presidencialismo reformado, assembleia constituinte ou pacto nacional. O risco é a reprodução do colapso institucional sob nova bandeira.
D – Geopolítico: Potências externas competem por influência. Países vizinhos reforçam fronteiras. O Brasil, em particular, sente pressão migratória e instabilidade regional.
Resultado dos 100 dias: transição emperrada, com risco de regressão autoritária sob outro formato.
Cenário 3 – Pacto de reconstrução nacional e refundação institucional (o cenário transformador)
A – Social: A transição é acompanhada por um pacto explícito com a sociedade, incluindo igrejas, sindicatos, universidades, diáspora e movimentos comunitários. Comissões de verdade e reconciliação são anunciadas cedo, não como vingança, mas como reorganização moral do país. A esperança deixa de ser abstrata e torna-se projeto coletivo.
B – Econômico: O petróleo e os minerais são tratados como instrumentos de reconstrução nacional, não apenas como ativos de mercado. Cria-se um fundo soberano com governança internacional e controle civil. Pequenos empreendedores e agricultura local recebem prioridade nos primeiros programas de crédito.
C – Político: Instituições são reconstruídas com apoio técnico externo, mas sob liderança venezuelana. O Exército é despolitizado e reintegrado como força constitucional. As eleições são anunciadas com regras claras, auditoria internacional e calendário realista.
D – Geopolítico: A Venezuela reposiciona-se como ponte energética e institucional entre América do Sul, Caribe e mercados globais, reduzindo dependências assimétricas. O país deixa de ser problema regional e volta a ser ator.
Resultado dos 100 dias: bases sólidas para uma nova república — ainda frágil, mas moralmente reconstruída.
Conclusão: mais que uma transição, uma escolha civilizatória
A queda de Maduro não encerra a tragédia venezuelana. Ela abre um intervalo histórico raro, onde decisões tomadas sob pressão moldarão décadas. O verdadeiro dilema não será entre esquerda e direita, nem entre soberania e intervenção, mas entre:reconstruir instituições ou apenas redistribuir o poder; libertar recursos ou libertar a sociedade; ou normalizar o país ou refundá-lo.
Os primeiros 100 dias não definirão tudo — mas definirão se a Venezuela voltará a ser um país com futuro, ou apenas um território pós-crise administrado por interesses alheios.
A história, desta vez, não concederá desculpas.
Em última instância, o renascimento da Venezuela dependerá da capacidade de transformar a queda de um regime em um recomeço nacional consciente, no qual a esperança popular não seja apenas emocional, mas estrategicamente orientada.
A superação do trauma coletivo exige liderança moral, instituições reconstruídas com transparência e uma visão de futuro que devolva ao povo venezuelano o sentido de pertencimento, dignidade e destino comum. Ao priorizar a reconciliação social, o uso responsável das riquezas naturais, a reintegração da diáspora e a recuperação plena da soberania institucional, a Venezuela poderá deixar para trás a lógica da sobrevivência e ingressar na lógica da reconstrução.
Mais do que restaurar o que foi destruído, trata-se de fundar um novo pacto entre Estado e sociedade, no qual liberdade, trabalho e justiça caminhem juntos — não como promessas vazias, mas como pilares de uma nação que reaprende a confiar em si mesma e a projetar o seu futuro com coragem e lucidez.