Diversidade etária para a construção de empresas éticas e sustentáveis
A verdadeira maturidade corporativa reside na capacidade de construir uma integridade dinâmica, formando um ecossistema que se adapta às mudanças sociais sem renunciar a seus valores fundamentais.
A convivência entre quatro gerações no ambiente corporativo — baby boomers, Geração X, millennials e Geração Z — costuma ser abordada sob a perspectiva dos conflitos de convivência e do choque de costumes. Até que ponto essa afirmação é verdadeira?
Sob o olhar do compliance e da governança, encontrar um ponto comum entre essas pessoas, pode se apresentar como um desafio, que na verdade, quando bem conduzido, constrói um ativo de grande valor, uma vez que os mercados atendidos também são compostos por essa heterogeneidade. Além desse argumento que salta à nossa compreensão num primeiro momento, empresas com diferentes gerações convivendo em seu ambiente de trabalho, permitem uma construção de organizações éticas, transparentes e resilientes às transformações do mercado, atuando como uma prevenção a que a organização se acomode no ponto em que está.
Por muito tempo, o compliance das empresas foi associado a um modelo predominantemente coercitivo e reativo. Essa primeira fase da manutenção da integridade das organizações tinha foco no cumprimento estrito de dispositivos legais, na elaboração de manuais extensos e no receio de sanções administrativas ou judiciais, atendendo às demandas de uma realidade empresarial pautada por hierarquias rígidas e fluxos de informação controlados, formando apenas um cenário familiar aos profissionais das gerações mais experientes.
A partir da aceleração digital, as pautas empresariais receberam novos compromissos relacionados aos temas socioambientais e à hiperconectividade, e que alteraram profundamente esse ecossistema. A integridade autêntica passou a ser exercida pelo compliance com propósito, trazendo a partir deste olhar, uma convergência de novos e sólidos valores que permeiam as ações de cada indivíduo no espaço organizacional.
De um lado, os profissionais mais seniores trazem em sua bagagem a experiência que desenvolveram em sua caminhada, associada a uma visão de longo prazo, cujo conhecimento acumulado sobre regulação e a memória corporativa são essenciais para evitar a repetição de falhas do passado. De outro, as gerações mais jovens ingressam no mercado com uma sensibilidade aguçada para questões éticas contemporâneas: cobram coerência irrestrita entre o discurso e a prática corporativa, em sua maioria são menos resilientes e exigem compromissos reais com a agenda ESG, demonstrando baixíssima tolerância a ambientes de trabalho desalinhados com a diversidade e o bem-estar. Embora sua resiliência possa ser compreendida como mais volátil, os aspectos de bem-estar tanto físico, quanto psicológicos devem ser uma prioridade que abranja todos os colaboradores caso a empresa queira manter um ambiente de trabalho saudável e reter os talentos que façam a diferença na construção do seu legado.
Vai aqui uma provocação: Você considera ser possível estabelecer um diálogo intergeracional de forma produtiva?
Se a sua resposta foi sim, certamente já compreende o poder da sinergia entre diferentes idades dentro do ambiente de trabalho, uma vez que esta se desdobra em ganhos práticos mensuráveis nos pilares que sustentam um efetivo programa de integridade.
O valor da heterogeneidade etária começa pela positividade na composição de comitês de ética e equipes de compliance que, a partir de olhares mais diversos, permite a capacidade de antecipação de ameaças, formando o mapeamento dos riscos a serem tratados e mitigados. Enquanto lideranças com maior vivência de mercado identificam com mais assertividade os riscos financeiros, regulatórios, tributários e contratuais, os profissionais mais jovens detectam as vulnerabilidades emergentes com rapidez. A partir daí, podem ser destacados limites éticos pertinentes à atuação da empresa como, por exemplo, definição sobre os riscos e consequências de quebra da privacidade de dados nas redes sociais, o assédio moral velado em ambientes virtuais de trabalho e quebras regulatórias socioambientais ao longo da cadeia de produção e de fornecedores, criar parâmetros éticos para o uso da inteligência artificial, preservação da marca e da reputação diante do mercado e ainda outros mais assuntos.
Já está mais que comprovado que a comunicação em massa dos regulamentos e códigos de conduta de uma empresa, via de regra, recebem baixa adesão. Então fica a dúvida: Como comunicar os regulamentos de forma que se obtenha a maior aceitação em todas as faixas etárias dentro do ambiente de trabalho? Essa comunicação será efetivamente absorvida pelas pessoas que participaram dos treinamentos? É difícil dizer. Antes de tudo devemos nos lembrar de que conhecimento adquirido precisa de emoção para que seja efetivamente internalizado, e ainda, que estamos diante de gerações que interagem de diferentes maneiras aos diversos canais de comunicação. Para alcançar todas as gerações, o uso das metodologias ativas constrói uma interação mais interessante ao se apresentar um treinamento em formato curto e objetivo, apoiada nos modelos de resolução de problemas, acessável por diferentes tipos de equipamentos e ferramentas digitais.
Ao se implantar uma avaliação de duas vias para quebrar as barreiras e os conflitos, quando dizemos que feedback é presente, não erramos, muito pelo contrário, pois a troca que existe entre a alta liderança já mais experiente, com os profissionais em início de carreira, cria um potente mecanismo de governança humana. São forças que se complementam juntando a visão de longo prazo e holística da liderança, com a visão mais emergente dos novos talentos. Esse fluxo humaniza as relações corporativas, prevenindo um desgaste no clima organizacional.
A verdadeira maturidade corporativa reside na capacidade de construir uma integridade dinâmica, formando um ecossistema que se adapta às mudanças sociais sem renunciar a seus valores fundamentais.
A preservação da integridade da operação e dos fluxos é melhor cuidada quando, ao estabelecer o diálogo entre as diversas camadas etárias, encontramos um ponto comum, não por todas as pessoas estarem de acordo com uma única opinião, mas ao contrário, por todas terem seus espaços delineados e respeitados, garantindo a governança de todas as formas de pensar e de todos os repertórios que habitam cada organização.
A coluna Papo de Compliance, da economista Selma Culturati Vasquez, é publicada semanalmente no BE News. Contato pelo e-mail: compliance@grupobrasilexport.com.br.