Economia do Mar: um novo olhar sobre o desenvolvimento
Santos reúne mais de 185 mil empregos formais, sendo mais de 38 mil diretamente vinculados à atividade portuária e às cadeias econômicas associadas ao porto, o que ajuda a dimensionar a relevância desse ecossistema para a economia local.
Nos últimos anos, uma expressão passou a ganhar espaço em seminários, estudos, fóruns e debates sobre infraestrutura, logística e desenvolvimento: Economia do Mar. Embora ainda pouco conhecida do grande público, ela já faz parte do vocabulário de governos, instituições e especialistas que atuam no ambiente marítimo. No Brasil, essa relevância se torna ainda mais evidente quando se observa que cerca de 95% do comércio exterior brasileiro é realizado por via marítima, segundo dados da Marinha do Brasil.
Mais do que definir um novo setor econômico, a Economia do Mar propõe um novo olhar sobre atividades que, há décadas, impulsionam o desenvolvimento de países e regiões costeiras.
À primeira vista, o termo pode sugerir que se trata de uma nova atividade econômica. Na prática, porém, ele reúne, sob uma mesma perspectiva, setores que têm no mar seu elemento de conexão. Portos, navegação, comércio exterior, indústria naval, pesca, aquicultura, turismo náutico, energias offshore, pesquisa científica, biotecnologia marinha e diversos outros segmentos passam a ser compreendidos como partes de um mesmo ecossistema econômico.
Essa visão integrada é justamente o que diferencia o conceito. Durante muito tempo, cada uma dessas atividades foi planejada de forma isolada. Hoje, governos, empresas e centros de pesquisa passaram a reconhecer que elas compartilham infraestrutura, conhecimento, inovação, qualificação profissional e oportunidades de desenvolvimento. Em outras palavras, compreender a Economia do Mar é entender que diferentes setores podem se fortalecer mutuamente quando passam a ser vistos como parte de uma mesma estratégia.
Essa abordagem já orienta políticas públicas e estratégias em diferentes partes do mundo. Em Portugal, o desenvolvimento do mar é tratado como um eixo estruturante das políticas nacionais. Um exemplo dessa visão integrada pode ser observado no Porto de Aveiro, onde a administração portuária utiliza sedimentos provenientes das dragagens do canal de navegação para recompor praias e minimizar processos de erosão costeira. Mais do que uma medida operacional, a iniciativa evidencia um dos princípios da Economia do Mar: compreender que o porto não é um elemento isolado da cidade, mas parte de um mesmo território, onde infraestrutura, meio ambiente e desenvolvimento precisam caminhar de forma integrada. É justamente essa lógica que fortalece a chamada relação porto-cidade, conceito cada vez mais presente nas discussões sobre o futuro das cidades costeiras.
Singapura, por sua vez, consolidou-se como um dos principais hubs marítimos mundiais ao integrar a operação portuária tradicional a uma sofisticada rede de logística, serviços especializados e tecnologia de ponta. Mais do que movimentar cargas, o país estruturou um verdadeiro ecossistema voltado à economia do mar, convertendo a sua escassez territorial em uma estratégia nacional de alta competitividade e liderança global.
No Brasil, a dimensão desse tema também é expressiva. Além da forte dependência do transporte marítimo no comércio exterior, o país possui cerca de 5,7 milhões de km² de área marítima, conhecida como Amazônia Azul. Esse espaço reúne atividades estratégicas como exploração de petróleo e gás, pesca, turismo, transporte marítimo e proteção ambiental, reforçando a importância do mar para a economia nacional.
Nesse contexto, Santos ocupa uma posição bastante singular. Reconhecida mundialmente por abrigar o maior porto da América Latina, a cidade reúne uma cadeia econômica que vai muito além da movimentação de cargas. Empresas de logística, navegação e comércio exterior convivem com universidades, centros de pesquisa, serviços especializados, atividades ligadas ao turismo e profissionais altamente qualificados. Poucos municípios brasileiros concentram tantos elementos que compõem a Economia do Mar.
Santos reúne mais de 185 mil empregos formais, sendo mais de 38 mil diretamente vinculados à atividade portuária e às cadeias econômicas associadas ao porto, o que ajuda a dimensionar a relevância desse ecossistema para a economia local.
Isso não significa que a Economia do Mar seja uma realidade exclusiva das cidades portuárias. Ao contrário. Ela conecta regiões, impulsiona cadeias produtivas e influencia atividades que muitas vezes acontecem longe da costa, mas dependem do transporte marítimo, das exportações, da inovação tecnológica e da infraestrutura logística para chegar aos mercados nacional e internacional.
O conceito não cria atividades inéditas, mas convida a enxergá-las de maneira integrada. E, para cidades como Santos, cuja história e vocação estão profundamente ligadas ao mar, entender essa transformação significa acompanhar uma agenda que já orienta importantes debates internacionais e que tende a ocupar um espaço cada vez maior também no Brasil.
Bruno Galoti Orlandi escreve quinzenalmente para o BE News, com seus textos publicados às segundas-feiras.