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Raul Lamarca

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Ecossistema Brasileiro de Inovações Portuárias: motivos para criá-lo e primeiros passos

O Brasil já abriga mais de 20 mil startups ativas (Observatório Sebrae Startups). Mas no setor portuário, o contraste é gritante: segundo estudo da Wilson Sons, existem hoje 528 startups globais de base portuária, mas apenas 24 estão no Brasil (Jornal do Comércio).

Nos portos, uma cena se repete há milênios: o navio encosta no cais, é amarrado por cabos e preso a cabeços metálicos. Os navios mudaram. As cordas mudaram. Os cabeços mudaram. Mas o processo é basicamente o mesmo.

Esse é o paradoxo portuário: em um setor vital para a economia, convivemos com práticas tradicionais que permanecem quase intocadas, mesmo quando tecnologias como IoT, inteligência artificial e digital twins já estão transformando operações em outros países.

O peso dos portos na economia brasileira

Em 2024, os portos brasileiros movimentaram 1,32 bilhão de toneladas de cargas (Antaq). Segundo a Secretaria Nacional de Portos, essa movimentação responde por cerca de 26% do PIB nacional.

Apesar desse peso estratégico, a realidade portuária brasileira é muito distinta das de Roterdã, Hamburgo ou Singapura. Nossos portos enfrentam realidades específicas, mas a forma de consumir tecnologia não reflete essas diferenças.

Predomina a tendência de importar softwares, patentes e sistemas desenvolvidos na Europa, Ásia ou EUA — sem conexão profunda com nossa cultura operacional. Essa lógica repete no campo da inovação tecnológica a mesma matriz do comércio exterior: exportamos commodities, importamos produtos acabados.

O déficit de inovação no setor

O Brasil já abriga mais de 20 mil startups ativas (Observatório Sebrae Startups). Mas no setor portuário, o contraste é gritante: segundo estudo da Wilson Sons, existem hoje 528 startups globais de base portuária, mas apenas 24 estão no Brasil (Jornal do Comércio).

Um país com nossa extensão litorânea, volume de cargas e relevância econômica deveria ter uma participação muito maior. O problema não é falta de demanda — é a ausência de um ecossistema que conecte desafios reais a soluções locais.

O que é um ecossistema de inovação portuária

Um ecossistema de inovação é como na ecologia: diferentes organismos interagem, se retroalimentam e sofrem quando um elo falha. No setor portuário, esse ecossistema depende da interação de cinco forças:

  1. Empresas – oferecem desafios e contratos em troca de soluções.
  2. Universidades – transformam problemas em conhecimento aplicado.
  3. Startups – prototipam rapidamente soluções escaláveis.
  4. Governo – cria incentivos e políticas que elevam a inovação ao nível setorial.
  5. Financiadores – públicos e privados, que aportam capital quando percebem um setor disposto a inovar.

Para construirmos um Ecossistema Brasileiro de Inovações Portuárias, é necessário uma articulação entre todas estas hélices de inovação. Mas há um ponto de partida essencial: as empresas privadas precisam apostar na inovação, pois o que mantém o ecossistema vivo a longo prazo são os contratos entre startups e empresas privadas.

Editais públicos são catalisadores importantes, mas não sustentam o processo sozinhos. Quando startups resolvem dores reais de empresas, geram novos negócios, empregos e renda. Crescem, contratam mais pessoas e criam um corpo técnico brasileiro capaz de resolver os desafios do nosso setor portuário.

Cases que mostram o caminho

O Porto do Itaqui nos contratou para conduzir o I Hackathon do Complexo Portuário Maranhense, projeto que conectou empresas, academia e startups em torno de desafios críticos enfrentados pelos terminais arrendados. Além de fomentar o ecossistema maranhense de inovações portuárias, que agora tem novos talentos para atender às empresas, este trabalho mostrou, sobretudo, que se os desafios dos portos forem bem mapeados, as soluções podem resolver os problemas com precisão.

O resultado foi a criação de soluções práticas, desenvolvidas em rede, que mostraram como inovação aberta pode nascer de dentro do setor. Abaixo, uma síntese do desafio e das respectivas soluções pelas três startups vencedoras:

  1. Como reduzir a incidência de pombos na poligonal do porto? Solução: combinação entre visão computacional (IA que reconhece pombos) e disparo de pulso eletromagnético de forma automática e localizada
  2. Como mitigar a queda de produtos transportados por carretas nas vias? Solução: Plataforma que auxilia terminais e áreas de apoio logístico no monitoramento da qualidade dos veículos
  3. Como aplicar tecnologia para aumentar a fiscalização de atos inseguros na área operacional? Solução: combinação entre visão computacional (IA) que aponta atos e condições inseguras e uma plataforma de apoio para gestores de saúde e segurança

No exterior, os exemplos são referência:

  • O Porto de Roterdã abriga a PortXL , a primeira aceleradora portuária e marítima do mundo, que, em parceria com a Erasmus Universiteit Rotterdam, já conta com vários cases inovadores. Um exemplo é a PortXchange [B-Corp], startup que aplica IA para gestão do ETA (Estimated Time of Arrival) dos navios, das embarcações de apoio e até dos transportes terrestres, aumentando a previsibilidade das operações e reduzindo o tempo de espera no line-up.
  • O Maritime and Port Authority of Singapore (MPA) criou o PIER71™ , que já acelerou dezenas de startups focadas em soluções portuárias, apoiadas tanto por capital público quanto privado. Uma ótima solução oriunda desse ecossistema é a Kanda, startup especializada em treinamentos em atividades de alto risco utilizando RA/RV (Realidade Aumentada e Realidade Virtual), reduzindo a exposição de pessoas ainda inaptas para exercício de suas funções.

Esses modelos provam que inovação portuária não é projeto isolado — é plataforma de competitividade.

O papel do Hub Livre

No Hub Livre, atuamos como orquestrador desse ecossistema. Nosso trabalho parte de quatro frentes complementares:

  • Educação corporativa – formar líderes e equipes para compreender e aplicar inovação.
  • Inovação aberta – com hackathons e desafios corporativos que conectam empresas e startups.
  • Desenvolvimento tecnológico – prototipação rápida, soluções no-code e low-code aplicadas a problemas reais.
  • Consultoria especializada – para fortalecer capacidades internas de inovação em empresas e instituições.

Esse modelo híbrido garante que inovação deixe de ser discurso e se torne prática cotidiana no setor portuário.

Conclusão

O futuro da inovação portuária não pode ser importado. Ele precisa ser construído aqui — com nossas dores, nossa cultura e nossa ambição.

Se os portos são a porta de entrada e saída do Brasil para o mundo, precisamos decidir: seremos protagonistas dessa transformação ou apenas espectadores?

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