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Efeitos das ações americanas na Venezuela sobre a atividade de petróleo e seus derivados no Brasil

Por Giovanni Cavalcanti Paiva
CEO da GCP Consult

Em síntese, a Venezuela opera hoje abaixo da capacidade e com óleo que gera derivados de menor valor de mercado. O Brasil, por sua vez, combina aumento de produção com petróleo de maior qualidade

O cenário recente da indústria petrolífera venezuelana reacende o debate sobre os possíveis impactos para o Brasil. A avaliação aqui tem foco técnico e operacional, sem aprofundamento político — até porque os desdobramentos profundos geopolíticos ainda são imprevisíveis. Não há clareza, por exemplo, sobre uma eventual apropriação de ativos ou controle operacional dos Estados Unidos sobre o petróleo venezuelano, o que poderia redefinir o comércio exterior do país.

Venezuela x Brasil: produção e perfil do petróleo

A Venezuela detém as maiores reservas provadas de petróleo do mundo — cerca de 303 bilhões de barris. O Brasil, segundo a ANP, possui menos de 17 bilhões de barris, ocupando a 16ª posição no ranking global.

Apesar do volume de reservas, a produção venezuelana vem encolhendo nos últimos anos. Problemas operacionais, sanções econômicas, redução de investimentos e deficiências na gestão e na qualificação da mão de obra fizeram a produção despencar de 3,5 milhões para cerca de 1 milhão de barris por dia (bpd). O Brasil segue trajetória oposta: já produz quase 4 milhões de bpd, com crescimento puxado pelo pré-sal.

Outro ponto relevante é a qualidade do petróleo. O barril venezuelano é, em sua maioria, pesado ou extrapesado — com grau API inferior a 22 — gerando derivados de menor valor agregado, como óleo combustível e asfalto. Já o petróleo brasileiro do pré-sal apresenta grau API superior a 30, classificado como leve ou extraleve, o que permite maior rendimento de produtos nobres, como diesel, gasolina, QAV, nafta e GLP.

Em síntese, a Venezuela opera hoje abaixo da capacidade e com óleo que gera derivados de menor valor de mercado. O Brasil, por sua vez, combina aumento de produção com petróleo de maior qualidade.

Comércio exterior venezuelano

Com baixa capacidade de refino, a Venezuela exporta predominantemente petróleo bruto ou produtos de baixo valor agregado. Segundo o relatório Venezuela’s Oil Industry in Global Market (janeiro de 2026 – Lodi 411), a China responde por mais de 80% das importações do petróleo venezuelano. Empresas americanas também consomem o produto via contratos vigentes, apesar das sanções.

As exportações de derivados são pequenas, inferiores a 300 mil toneladas por mês. Ao mesmo tempo, o país importa petróleo leve, diluentes e nafta  para viabilizar a produção, o transporte e o processamento do seu petróleo pesado. Também importa derivados — gasolina, diesel e outros  — para abastecer o mercado interno, já que a demanda supera a atual capacidade refinadora.

Impactos para o Brasil

Apesar da volatilidade recente no mercado financeiro e da oscilação nas ações da Petrobras, o abastecimento brasileiro não depende da Venezuela. A logística nacional é consolidada e diversificada. Assim, no curto prazo, não há efeito significativo sobre o mercado brasileiro de petróleo. Mesmo que haja retomada da indústria venezuelana, isso só deve ocorrer no médio prazo, devido ao alto investimento necessário.

A diferença de qualidade entre os petróleos brasilieiro e venezuelano e a perspectiva de crescimento dos campos no Brasil, com a exploração da Margem Equatorial — que pode elevar a produção nacional para até 5,8 milhões de bpd — mesmo que ainda sem exploração comercial, nos coloca numa posição mais favorável.

No mercado de derivados, porém, abre-se uma janela de oportunidade caso a Venezuela retome investimentos em refino e logística. O Arco Norte brasileiro, por exemplo, é fortemente dependente de diesel importado — especialmente via São Luís (MA). Hoje, grande parte desse combustível vem do Oriente Médio e da Rússia. Pela proximidade geográfica, a Venezuela poderia reduzir custos logísticos e, ao mesmo tempo, usar petróleo leve brasileiro para diluir seu óleo pesado, ampliando eficiência operacional.

Não se pode olvidar que, como empresa, a nossa Petrobras também poderia participar de consórcios na Venezuela, ampliando sua atuação internacional e aumentando sua eficiência logística.

Caso operadores americanos assumam produção e refino venezuelanos, a tendência é de racionalização logística — cenário em que o Brasil também poderia se beneficiar. O componente político, no entanto, segue como variável relevante e imprevisível.

Geopolítica e riscos de sobreoferta

Se os Estados Unidos redirecionarem parte das exportações venezuelanas para seu próprio mercado, pode surgir espaço para o Brasil ganhar participação na China, sobretudo com o avanço da Margem Equatorial.

Há, porém, um ponto de atenção: o aumento global da oferta — impulsionado também por Guiana e, futuramente, Suriname — pode pressionar o preço do barril, afetando a atratividade de investimentos no Brasil. Nesse contexto, empresas tendem a decidir entre acelerar projetos com ajustes estratégicos ou reduzir o ritmo de expansão até que o cenário se consolide. Outra alternativa é incrementar a eficiência tecnológica, reduzindo custos e aumentando a competitividade.

Embora, mesmo com a necessidade de diluentes, o custo de produção na Venezuela seja, em geral, menor, por ser em águas rasas, o petróleo brasileiro, inclusive o da Margem Equatorial, apresenta melhor qualidade e maior valor de mercado.

Perspectivas

O ambiente atual é de incerteza. Os movimentos de potências como Estados Unidos e China serão determinantes para definir o fluxo global de petróleo.

No curto prazo, empresas americanas não parecem capazes de restaurar rapidamente a produção venezuelana aos níveis dos anos 2000.

Para o Brasil, a Margem Equatorial segue estratégica — tanto pela geração interna de valor quanto pela possibilidade de reposicionamento no mercado internacional. 

Mesmo com eventual fortalecimento do refino venezuelano, o País pode ser beneficiado, especialmente no abastecimento de diesel, já que cerca de 25% da demanda nacional ainda depende de importações.

Por enquanto, o Brasil permanece independente do petróleo venezuelano — mas atento ao desdobramento dos próximos capítulos.

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