Efeitos para o Brasil da guerra USA x Irã e outros países
No contexto do petróleo, talvez o mundo precise desconcentrar das reservas do Oriente Médio, explorar mais a Venezuela, Guiana, Margem Equatorial do Brasil, aumentar prospecção na África. O choque na oferta não cessa a demanda.
As incertezas prevalecem. As tendências podem mudar a qualquer hora. No clima de tensão mundial, uns perdem, outros se aproveitam das perdas. São movimentos naturais, onde necessita-se de uma gestão de políticas atentas aos cenários.
Em termos econômicos, o Brasil, no primeiro trimestre, teve a corrente de comércio muito próxima ao do mesmo período de 2025, totalizando US$ 150,5 bilhões, com uma tendência de crescimento já que o mês de março representou mais que a média dos meses anteriores – US$ 56,8 bilhões. Neste contexto de superávit positivo, se destacaram as exportações de minério, soja e petróleo bruto, principalmente para a China.
Parcialmente, isso pode ser constatado como consequência dos “efeitos Venezuela”, dado que boa parte das exportações do seu petróleo cambiou para os Estados Unidos ao invés da China. Ganhou o Brasil nesse cenário. E para os “efeitos Irã”, o Brasil tenderá a aumentar as suas exportações de petróleo para aquele país, já que os chineses são consumidores do petróleo que passa pelo estreito de Ormuz.
Além disso, vem contribuindo para o aumento das exportações brasileiras, a cotação irregular, mas com valores crescentes, do Brent, que tende a três dígitos, mesmo com o recuo do dólar, hoje na casa dos R$ 5,00. Para termos uma noção, o Brasil produz quase 3,8 milhões de bpd (barris por dia) – exporta 1,9 milhão, principalmente para China, Índia e USA, e importa, em média 350 mil bpd para ajuste da produção de derivados. Isso leva a um saldo de mais de 1,5 milhão de bpd disponíveis para ofertar ao mundo.
Apesar desse ponto positivo, os efeitos do aumento do valor do barril de petróleo para a produção e a logística dos outros produtos são nocivos à economia brasileira. Os insumos e produtos importados dos países fornecedores do Brasil apresentam-se com seus preços aumentados e já impactam a inflação, aumento de custo de vida e, com o tempo, outros problemas sociais como desemprego e violência. Estão neste rol de produtos com logística impactada:
- fertilizantes – que atendem nosso agronegócio;
- químicos – que atendem uma gama de nossos processos industriais;
- frangos, carne bovina, milho e outros produtos da agropecuária
Aqui no Brasil. alguns distribuidores de combustíveis se anteciparam nos meses de março, aumentando os valores dos produtos no mercado, mesmo sem a Petrobras, que fornece 70% do produto no mercado nacional, ter aumentado seus valores de venda. Todavia, esse aumento foi justificado pela aquisição dos produtos a partir de refinarias privadas, como a de Mataripe/BA, Clara Camarão/RN e da Amazônia/AM, que acompanham preços internacionais. Há defasagem dos preços de venda da Petrobras, a menor, para diesel e gasolina, segundo associações privadas. Cabe lembrar que a maioria do petróleo que é importado para o Brasil não passa pelo estreito de Ormuz, o que pode justificar cautela no aumento dos preços internos.
No campo da economia interna do País, sobre os potenciais desdobramentos em meio a esse momento de alta instabilidade geopolítica, verifica-se que os planos de redução da taxa Selic podem ser amenos para conter a inflação e, consequentemente, os investimentos em infraestrutura podem ficar arrefecidos.
Enfim, temos que ficar alertas à ordem mundial, pois tudo que ocorrer fora do nosso Brasil traz consequências para o comércio e o abastecimento de nosso País, principalmente quando se mexe com produtos como o petróleo, que não é uma mera commodity, ou quando se interrompe rotas de alta densidade de navios de contêineres, que movimentam uma diversidade de produtos de primeira necessidade.
No contexto do petróleo, talvez o mundo precise desconcentrar das reservas do Oriente Médio, explorar mais a Venezuela, Guiana, Margem Equatorial do Brasil, aumentar prospecção na África. O choque na oferta não cessa a demanda.
Inferimos que problemas como esses trazem reflexões do tipo: Está na hora de acelerar mais o desenvolvimento de alternativas energéticas? Ter reservas ou autossuficiência em petróleo muda o conceito de virtude econômica para questão de segurança nacional?
Bom sempre observar esse momento de crise para realinhar posturas e aproveitar as oportunidades, não se deixando ser seduzido por discursos conceituais externos, pois podem nos colocar antolhos inaceitáveis que serão lamentados no futuro e ficarão registrados na história como um grande equívoco.
Em face das altas incertezas e constantes mudanças de cenários provocados por essas guerras, este texto poderá estar desatualizado em poucas horas.