Eficiência dos negócios e produtividade no Brasil: o desafio da liderança
Líderes precisam criar estruturas capazes de transformar iniciativa individual em resultado coletivo. A criatividade, a adaptabilidade e a capacidade de encontrar soluções diante das adversidades são atributos valiosos, mas produzem mais resultados quando apoiados por processos claros, bem definidos e consistentes de execução.
“A taça do mundo é nossa. Com brasileiro, não há quem possa”. O hino que imortalizou a vitória do Brasil na Copa de 1958, hoje, soa distante da nossa realidade nos gramados. Gostaria de afirmar que esse verso clássico, ao menos, traduz uma capacidade imbatível das nossas empresas, mas os indicadores globais mais recentes mostram um panorama bem diferente.
O Ranking Mundial de Competitividade 2026, elaborado pelo International Institute for Management Development (IMD) em parceria com a Fundação Dom Cabral, colocou o Brasil na 65ª posição entre as 70 economias avaliadas. A queda de desempenho foi puxada, principalmente, pelo indicador de eficiência dos negócios, justamente um dos fatores que mais influenciam a capacidade de uma empresa crescer, gerar valor e permanecer competitiva ao longo do tempo.
O cenário é preocupante. Os dados do estudo são baseados em indicadores estatísticos, mas também na percepção de executivos sobre o ambiente de negócios de cada país. A imagem do Brasil no exterior revela alguns paradoxos interessantes.
– O Brasil é visto como um país jovem, conectado e detentor de recursos naturais indispensáveis para a transição verde. Apesar da percepção de que vale a pena investir no país, o alto custo de capital e o elevado endividamento corporativo evidenciam a instabilidade que acompanha esse investimento. O potencial de retorno existe, mas o custo financeiro e operacional de manter uma operação no país faz muitos investidores e empresas recuarem.
– Os empreendedores brasileiros são vistos como criativos, resilientes e capazes de resolver problemas complexos mesmo com poucos recursos. O famoso “jeitinho brasileiro”, nesse caso, é bem-visto. Porém, o ranking mostra que essa criatividade muitas vezes surge como resposta à falta de infraestrutura e às deficiências educacionais. O mercado percebe que essas características nem sempre se convertem em eficiência organizacional.
Resumindo a imagem do Brasil lá fora, continuamos sendo o país do futuro. Embora muitos dos fatores que contribuem para essa percepção não estejam sob o controle dos líderes, outros dependem diretamente da capacidade de transformar potencial em resultados concretos. Algo que o país promete há décadas, mas ainda entrega de forma irregular.
Para reduzir a percepção de risco associada ao Brasil, líderes empresariais precisam investir em governança sólida, transparência e mecanismos de controle capazes de gerar confiança além das fronteiras nacionais. Quando o ambiente externo é visto com cautela, empresas que demonstram previsibilidade, responsabilidade e rigor na gestão conseguem transmitir maior segurança a investidores, parceiros e mercados internacionais.
Melhorar a produtividade passa, necessariamente, pela capacidade dos líderes de criar entendimento dentro das organizações. Isso exige comunicação clara, desenvolvimento contínuo das equipes e uma cultura em que informações relevantes circulem com precisão. Quando as pessoas sabem o que fazer, por que fazer e como suas atividades contribuem para os resultados, a execução ganha consistência.
Em um ambiente marcado por incertezas, líderes precisam assumir o papel de intérpretes da realidade para investidores, parceiros e demais públicos estratégicos. Isso exige uma presença pública capaz de transmitir visão de longo prazo, capacidade de execução e entendimento dos desafios do ambiente de negócios. Mais do que apontar obstáculos, executivos devem comunicar com clareza quais decisões estão sendo tomadas para enfrentá-los.
Líderes precisam criar estruturas capazes de transformar iniciativa individual em resultado coletivo. A criatividade, a adaptabilidade e a capacidade de encontrar soluções diante das adversidades são atributos valiosos, mas produzem mais resultados quando apoiados por processos claros, bem definidos e consistentes de execução. O desafio das organizações é preservar a agilidade sem renunciar à disciplina operacional, direcionando a energia empreendedora das equipes para objetivos comuns e sustentáveis ao longo do tempo.
Se o Brasil deseja deixar de ser lembrado como o país do futuro, precisará demonstrar maior capacidade de entregar resultados no presente. Esse movimento não depende apenas de políticas públicas ou de mudanças estruturais de longo prazo. Passa, também, pelas decisões tomadas diariamente dentro das empresas. Assim, os versos que abriram este artigo podem voltar a fazer sentido, ao menos quando o assunto é a capacidade de gerar negócios.
Clara Laface escreve para o BE News semanalmente, com seus artigos publicados sempre às terças-feiras.