Eficiência também passa pela forma como usamos a água
A gestão ambiental precisa acompanhar a evolução da operação. À medida que o terminal cresce, surgem novas demandas, novos processos e novas oportunidades para melhorar o uso dos recursos.
Quando pensamos na operação de um porto, é natural que a primeira imagem seja a de navios, contêineres, equipamentos e grandes volumes de carga. Existe uma estrutura inteira funcionando por trás disso. Pessoas, energia, água, tecnologia e processos precisam estar coordenados para que a operação aconteça com segurança e eficiência.
A água ocupa um lugar importante nessa rotina. Está presente nas instalações, nos serviços de apoio e em diferentes atividades do terminal. Por isso, a maneira como utilizamos esse recurso precisa fazer parte das decisões de gestão.
No Porto Itapoá, temos trabalhado para reduzir o consumo de água potável e aumentar as possibilidades de reaproveitamento. Desde a inauguração da III fase de expansão, em janeiro de 2024, já ultrapassamos 2 milhões de litros de água reutilizados.
Esse resultado vem da Estação de Reuso de Água, instalada no terminal e equipada com tecnologia de membranas internas. O sistema tem capacidade para tratar até 10 mil litros por dia. Depois do tratamento, a água retorna para a operação e pode ser utilizada em sanitários, na lavagem de veículos, na gestão de resíduos e em outras atividades internas.
A lógica é simples: sempre que uma atividade não exige água potável, existe a possibilidade de avaliar o uso de água tratada. Isso exige estrutura, controle e tecnologia. Também exige que o processo seja pensado desde o início para que o recurso possa circular novamente dentro da operação.
Esse tipo de solução ganha relevância quando olhamos para o volume acumulado ao longo do tempo. Dois milhões de litros reutilizados representam uma quantidade concreta de água que deixou de ser destinada a um único uso. O número também mostra que pequenas decisões operacionais, quando mantidas de forma consistente, podem produzir resultados relevantes.
A gestão da água no Porto Itapoá envolve ainda o tratamento dos efluentes gerados no terminal. O sistema existe desde o início das operações e trata, atualmente, uma média de 20 mil litros por dia provenientes dos sanitários, do refeitório e da cozinha do prédio administrativo.
A estrutura tem capacidade superior a 70 mil litros diários e já ultrapassa 7 milhões de litros de efluentes tratados por ano. Em 2022, o sistema foi atualizado com tecnologia de membranas biorreativas, permitindo aprimorar o processo de tratamento.
Hoje, a água resultante desse sistema apresenta qualidade adequada para reuso. Estamos avaliando novas aplicações, entre elas a limpeza de áreas e equipamentos do terminal. O objetivo é ampliar o aproveitamento da água tratada e reduzir ainda mais a necessidade de água potável em atividades que não dependem dela.
Esse processo também mostra algo que considero importante na gestão ambiental: não existe uma etapa definitiva. Um sistema é instalado, começa a operar, seus resultados são acompanhados e novas possibilidades aparecem. A partir daí, cabe avaliar o que pode ser aprimorado.
A tecnologia tem um papel importante nesse caminho. No caso do tratamento de efluentes, por exemplo, a atualização realizada em 2022 permitiu incorporar uma solução mais avançada ao sistema existente. O mesmo princípio orienta a Estação de Reuso de Água.
Investir em tecnologia, nesse contexto, significa buscar soluções que tenham aplicação real na operação. O resultado precisa aparecer no processo, nos indicadores e no uso mais eficiente dos recursos.
Essa visão também está relacionada ao lugar onde o Porto Itapoá está inserido. Nossa operação está na Baía da Babitonga, um ambiente de grande importância para Santa Catarina. Fazer parte desse território traz uma responsabilidade permanente com a forma como utilizamos seus recursos e conduzimos nossas atividades.
O setor portuário convive diariamente com esse desafio. A atividade precisa crescer, acompanhar as necessidades do comércio exterior e manter altos níveis de eficiência. Ao mesmo tempo, precisa considerar os impactos que essa operação produz e encontrar formas de reduzi-los.
Essa discussão esteve presente no tema escolhido pela Organização Marítima Internacional para o Dia Marítimo Mundial de 2026: “From Policy to Practice: Powering Maritime Excellence”. A ideia de transformar compromissos em práticas concretas tem relação direta com o que buscamos fazer no dia a dia.
No nosso caso, isso passa por medir o que consumimos, tratar o que pode ser tratado e encontrar novos usos para aquilo que ainda pode voltar à operação.
Os mais de 2 milhões de litros de água reutilizados desde 2024 são resultado desse trabalho. Os mais de 7 milhões de litros de efluentes tratados por ano também ajudam a dimensionar o que já foi construído. Esses números servem ainda como ponto de partida para novas metas.
A gestão ambiental precisa acompanhar a evolução da operação. À medida que o terminal cresce, surgem novas demandas, novos processos e novas oportunidades para melhorar o uso dos recursos.
No Porto Itapoá, queremos continuar avançando nessa direção. A gestão da água é uma das frentes em que conseguimos medir esse avanço de maneira bastante concreta. Temos uma estrutura funcionando, resultados que podem ser acompanhados e novas aplicações em estudo.
Para mim, esse é o caminho mais consistente: identificar uma necessidade, investir em uma solução, acompanhar o resultado e procurar o próximo avanço. Quando esse ciclo passa a fazer parte da gestão, a sustentabilidade deixa de depender de ações pontuais e começa a aparecer na rotina da operação.
No fim, cuidar melhor da água também é uma forma de administrar melhor um porto. E esse é um compromisso que precisa continuar evoluindo junto com a nossa operação.
Ricardo Arten. CEO do Porto Itapoá.