Em busca de equidade e desenvolvimento
Trinta e sete por cento dos trabalhadores do transporte aéreo são mulheres. No transporte terrestre, 16,8%. No setor aquaviário, 14,6%. Esses dados, da Relação Anual de Informações Sociais (Rais) e do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), foram apresentados no encontro do Conselho Feminino do Grupo Brasil Export nessa terça-feira, dia 4, em Brasília. E descrevem um setor que ainda reproduz, em sua base operacional, a segregação de gênero que marca o mercado de trabalho brasileiro de forma mais ampla. Pilotos, maquinistas, operadores de equipamentos portuários, motoristas de longa distância, funções historicamente masculinas que permanecem masculinas na prática, mesmo décadas depois de se tornarem legalmente acessíveis. Esses dados precisam ser nomeados sem eufemismo antes que qualquer celebração seja justa.
E então vem o dado que complica a narrativa simples. Na mesma semana em que esses números foram apresentados, a mesa do Conselho Feminino do Brasil Export reuniu a presidente interina da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), a diretora da Agência Nacional de Transportes Aquaviários (Antaq), a gerente de Meio Ambiente e Transição Energética da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), a superintendente de Sustentabilidade da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT), a secretária-executiva adjunta do Ministério de Portos e Aeroportos e a superintendente de Inteligência de Mercado da Infra S.A. São mulheres que regulam canais de navegação, autorizam leilões de aeroportos, definem os parâmetros de sustentabilidade das concessões rodoviárias e supervisionam os estudos de viabilidade dos maiores projetos de infraestrutura do País. A base operacional ainda é masculina, mas o topo regulatório e institucional está sendo construído com participação feminina crescente. E essa distinção importa porque é no topo em que as regras do setor são escritas.
O BE News considera que o Conselho Feminino do Grupo Brasil Export cumpre uma função que vai além do networking entre lideranças. Ao reunir mensalmente representantes de agências reguladoras, ministérios, empresas públicas e entidades setoriais, o espaço cria o tipo de interlocução transversal, entre modalidades, entre setores público e privado, entre regulação e planejamento, que raramente acontece nos fóruns técnicos tradicionais, organizados por tema ou por modal. Uma diretora da Antaq conversando com a gerente de transição energética da Anac e com a superintendente de sustentabilidade da ANTT num mesmo ambiente produz conexões entre agendas que os organogramas institucionais separam. Isso tem valor prático — e é mais raro do que deveria ser na infraestrutura brasileira.
A solução para o cenário evidenciado pelos números atuais de participação feminina na base operacional dos modais de transporte e, ainda, uma distribuição mais equitativa passam por políticas que ainda não existem de forma sistemática no setor: programas de formação técnica direcionados a mulheres nas ocupações de maior déficit de gênero, exigências de metas de equidade nos contratos de concessão e arrendamento portuário, e incentivos para que operadores de terminais, companhias aéreas e empresas de navegação incluam a diversidade de gênero como critério de gestão auditável, e não apenas como retórica de relatório de sustentabilidade. O Projeto Asas, lançado em Santos na segunda-feira passada para a inclusão de pessoas com deficiência no setor portuário, mostrou que a coordenação setorial produz resultados que iniciativas isoladas não alcançam. O mesmo modelo pode ser aplicado à equidade de gênero. E o Conselho Feminino tem a composição institucional para liderar essa agenda se decidir fazê-lo.
A infraestrutura brasileira será construída, nos próximos anos, pelas pessoas que hoje sentam nas mesas de regulação, planejamento e decisão. Que cada vez mais essas mesas sejam ocupadas por quem representa a metade da população que durante décadas foi excluída de sentar nelas.