Em defesa da pesquisa agropecuária
Responsável por um PIB de R$ 3,2 trilhões em 2025, 25% do PIB nacional, com exportações de US$ 169,2 bilhões e tendo 28,4 milhões de pessoas empregadas no campo, a agricultura brasileira é o setor que mais consistentemente sustentou o desempenho da economia nacional nas últimas décadas. Por isso, faz todo o sentido que a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) tenha lançado o documento Agenda Estratégica para Agricultura do Brasil, como uma contribuição ao debate eleitoral de outubro. Não é manifesto político, mas evidência científica organizada para subsidiar programas de governo e iniciativas legislativas.
Nesse documento, a Embrapa fez um cálculo que nenhum candidato consegue ignorar com facilidade: cada real investido na empresa retorna R$ 27,12 à sociedade brasileira. Esse é o número que deveria encerrar qualquer debate sobre o custo-benefício de financiar pesquisa agropecuária pública no Brasil. Infelizmente, isso não ocorre – e o orçamento das agências e dos institutos de pesquisa brasileiros sofre pressão de corte com a mesma periodicidade com que o de agências reguladoras. A ironia é precisa: corta-se o investimento que retorna 27 vezes, para equilibrar um orçamento que se desequilibra, em parte, porque a produtividade agrícola não cresce no ritmo que cresceria com mais pesquisa aplicada. O custo da inação em pesquisa agropecuária não aparece na planilha de corte; aparece, anos depois, na dependência de sementes importadas, na vulnerabilidade a pragas sem resposta tecnológica nacional e na perda de mercados para concorrentes que investiram enquanto o Brasil contingenciava.
Entre os temas estratégicos identificados pela Embrapa, está a redução da dependência de insumos importados, como fertilizantes, pesticidas e sementes. É a agenda que ataca uma das principais vulnerabilidades estruturais do agronegócio brasileiro, evidente toda vez que uma crise geopolítica interrompe o fornecimento russo de potássio ou eleva o preço do ureia. A reunião da ApexBrasil com a IFFCO, maior cooperativa de fertilizantes da Índia, tratada no BE News ao cobrir a missão do ministro Márcio Elias Rosa a Nova Delhi, é precisamente essa agenda em sua dimensão diplomática e comercial. A Embrapa aborda sua dimensão científica, defendendo a pesquisa em biofertilizantes e fixação biológica de nitrogênio, que pode reduzir a dependência de insumos sintéticos importados. As duas dimensões precisam avançar juntas. A bioenergia e os biocombustíveis citados pela Embrapa conectam-se diretamente ao debate sobre etanol marítimo, que este jornal acompanha desde o primeiro abastecimento de navio em Santos (SP), e ao hidrogênio verde de Areia Branca (RN), onde a biomassa da cana e do cerrado é a matéria-prima que nenhum outro país tem na mesma escala.
A publicação da Embrapa tem valor que vai além do calendário eleitoral. O alerta sobre os R$ 17,1 trilhões de custo econômico projetado pelo Ipea, caso o Brasil demore a adotar medidas de adaptação às mudanças climáticas, é o dado que conecta a agenda de pesquisa agropecuária à agenda de infraestrutura que o BE News acompanha na cobertura jornalística da seca do Tapajós, da fila de caminhões em Miritituba (PA), da dragagem emergencial de hidrovias amazônicas, da resiliência logística no Norte. A agricultura tropical que a Embrapa pesquisa é a mesma que enfrenta secas mais intensas, chuvas mais concentradas e pragas de distribuição geográfica alterada pelo aquecimento global. Investir em pesquisa de tolerância a estresse hídrico e térmico nas sementes não é agenda ambiental separada da agenda logística. É condição para que o agronegócio continue produzindo os volumes que os portos de Santos, Paranaguá (PR) e o Arco Norte precisam escoar.
O agronegócio brasileiro não chegou a R$ 3,2 trilhões de PIB por acidente. Chegou porque décadas de investimento público em pesquisa, da soja adaptada ao Cerrado aos biocombustíveis de cana, transformaram um país de solo ácido e clima tropical numa potência alimentar global. Manter e ampliar essa posição exige que os eleitos em outubro tratem a Embrapa como o que ela demonstrou ser: o investimento de maior retorno disponível ao Estado brasileiro. R$ 27 de retorno por real aplicado é uma taxa que nenhum tesouro do mundo recusa. O Brasil precisa parar de recusá-la.