Emergência climática na Amazônia
O Governo do Amazonas decretou estado de emergência climática preventiva antes mesmo da vazante mais crítica dos rios, prevista entre setembro e novembro. A decisão reflete uma mudança de percepção que o setor logístico já incorporou com mais velocidade do que as políticas públicas: a seca na Amazônia deixou de ser evento climático excepcional e passou a ser variável estrutural de planejamento. Em 2023 e 2024, rios da bacia amazônica atingiram mínimas históricas e 69% dos municípios da região enfrentaram algum grau de estiagem. O El Niño projetado para o segundo semestre deste ano anuncia mais do mesmo. Empresas já reagiram, antecipando embarques, expandindo armazenagem e encomendando balsas. O Estado brasileiro ainda não reagiu na mesma escala.
A dependência da Região Norte do transporte fluvial não é uma vulnerabilidade que se resolve com mais estoque. É uma fragilidade estrutural que se agrava a cada ano em que a infraestrutura de apoio à navegação — dragagem de manutenção dos rios, sinalização náutica, portos fluviais com capacidade de armazenagem adequada — não acompanha a frequência e a intensidade crescentes das secas. Quando o nível do rio baixa, a solução imediata é reduzir a carga das balsas para manter o calado operacional, o que significa mais viagens, mais custo e menos eficiência para abastecer uma região que depende desses rios para receber alimentos, medicamentos, insumos industriais e escoar a produção da Zona Franca de Manaus. O rodoviário e o aéreo entram como alternativa, mas a custos que tornam produtos básicos significativamente mais caros para populações que já vivem com renda per capita abaixo da média nacional.
A Zona Franca de Manaus merece atenção específica nesse contexto. O polo industrial que gera empregos, renda e arrecadação para toda a Região Norte depende dos rios tanto para receber os insumos que alimentam sua linha de montagem de eletroeletrônicos, motocicletas e outros produtos, quanto para escoar a produção para o restante do País. A reforma tributária preservou os incentivos da Zona Franca, decisão correta e necessária para a continuidade do modelo. Mas a sustentabilidade de longo prazo do polo industrial não depende apenas do regime fiscal, mas também de uma logística confiável o ano inteiro, inclusive nos meses em que os rios estão no limite mínimo de navegabilidade. Nenhum regime tributário resolve o problema de um insumo que não chegou porque a balsa encalhou.
O BE News defende que o Governo Federal precisa tratar a resiliência logística da Amazônia com a mesma urgência com que trata as concessões portuárias do litoral. Isso implica em garantir a manutenção regular dos rios, com uma dragagem contínua dos canais de acesso aos principais portos fluviais e dos trechos de menor profundidade nos rios estratégicos para o abastecimento regional, não como obra emergencial quando a seca já chegou, mas como programa permanente que antecipa as estações de vazante. Também é necessário expandir a capacidade de armazenagem em pontos estratégicos da bacia amazônica. Outro ponto estratégico é a integração modal efetiva, com rotas aéreas para o transporte de cargas para municípios sem acesso fluvial confiável durante a seca, com tarifas reguladas que impeçam que o isolamento logístico se traduza em preços abusivos para itens essenciais.
A mudança climática não é uma ameaça futura para a Amazônia, é uma realidade presente que a logística privada já está absorvendo com seus próprios recursos. Operadores que investem em balsas maiores, armazéns avançados e planos de contingência adotam essas ações para sobreviver num ambiente de risco crescente. Mas a conectividade da Região Norte não é apenas uma questão de negócio, mas um tema de soberania territorial e de direitos básicos de populações que dependem dos rios para ter acesso a alimentos, saúde e emprego. Essa responsabilidade não pode ser terceirizada integralmente ao setor privado. A seca voltará e o planejamento público precisa estar pronto o quanto antes.