Entre a cruz e a espada
Uma das soluções para o problema de agendamento/estacionamento de caminhões é a criação de pátios reguladores ao longo das rodovias que acessam o Porto de Santos. Instalá-los junto a complexos que incluam postos de serviço e restaurantes propiciará atendimento digno aos caminhoneiros.
O Porto de Santos (SP) vive alguns dilemas, o que não é diferente com outros complexos portuários nacionais. Além das restrições ambientais e das constantes judicializações decorrentes da confusão legal existente em nosso País, existem questões estratégicas que, de certa forma, geram conflitos de interesse entre mercado e visão de Estado.
É o caso, por exemplo, da definição sobre áreas para estacionamento de caminhões no Porto de Santos.
Recentemente, a Autoridade Portuária de Santos (APS) propôs algumas áreas para esse fim, uma reivindicação antiga de caminhoneiros, que também afeta as operações portuárias, as retroportuárias e a relação porto-cidade.
Além dos impactos logísticos, existem demandas dos caminhoneiros para que sejam disponibilizadas áreas com infraestrutura adequada para recebê-los, incluindo instalações sanitárias, serviços automotivos e de alimentação.
Antes disso, muito em função do caos viário ocorrido em 2013, que congestionou as duas pistas da Avenida Governador Mário Covas, a APS criou um sistema de agendamento de veículos que mitigou o problema. No entanto, os cenários futuros apontam para um aumento da demanda por transporte rodoviário, mesmo com o incremento do modo ferroviário, pois, mesmo que novas ferrovias acessem o complexo portuário, as vias internas do Porto têm limites operacionais.
Ao mesmo tempo, há a crescente demanda por novas áreas portuárias e retroportuárias no Porto de Santos.
Nesse âmbito, a destinação de uma área na margem direita, com acesso pela Avenida Augusto Barata, para instalações receptivas de caminhões, tem objeção por parte de operadores de contêineres, que consideram que esse espaço deve ser utilizado para implantação de terminal retroportuário de cargas. Essa proposta implicará em aumento do fluxo viário, ainda mais com a implantação do Tecon Santos 10.
Daí, o cenário atual justifica o título deste texto.
A esse dilema/confronto, somam-se as dificuldades na obtenção de licenciamento ambiental de áreas próximas ao Porto, tantas são as restrições impostas em áreas costeiras e estuarinas.
Uma das soluções para o problema de agendamento/estacionamento de caminhões é a criação de pátios reguladores ao longo das rodovias que acessam o Porto de Santos. Instalá-los junto a complexos que incluam postos de serviço e restaurantes propiciará atendimento digno aos caminhoneiros. Cada um deles seria interligado ao sistema de agendamento do Porto de Santos, disciplinando o acesso ao complexo portuário.
Outro aspecto relevante nesse processo, reiterado com frequência, mas pouco desenvolvido, é a necessidade de melhoria do sistema de silagem na origem, no caso do agronegócio.
Outra possibilidade, no caso de produtos industrializados, é aproximar sua produção do porto ou alterar a forma como são transportadas cargas de projeto, que poderiam vir em partes, acondicionadas em contêineres, e montadas em plataformas industriais próximas ao porto.
Em ambos os casos, os custos logísticos seriam reduzidos, com os investimentos em infraestrutura e instalações amortizados em curto ou médio prazo. No entanto, isso não se aplica à demanda do agronegócio, que tende a aumentar, mesmo com a concorrência de outros portos do Sudeste e do Sul, do Arco Norte e das potenciais ligações bioceânicas.
As instalações do Porto Organizado de Santos, ao longo da margem direita, têm interfaces com áreas urbanas densamente habitadas, que limitam sua expansão. Soluções de acesso encontram-se em processo, para tentar conciliar os fluxos viários urbanos com os portuários.
A alternativa de expansão para as atividades portuárias e retroportuárias é a ocupação de áreas lindeiras ao Canal de Piaçaguera, em Cubatão, e na área continental de Santos. Há ainda terrenos em Guarujá, embora sem acesso direto à linha d’água, que também se prestam a atividades logísticas e industriais.
A APS pretende incluir áreas de São Vicente e Cubatão na Poligonal do Porto Organizado.
Essas alternativas são prioritárias para a expansão sustentada do Porto de Santos, principal atividade econômica da Região Metropolitana da Baixada Santista (RMBS) e mais importante complexo portuário do Brasil.
A conciliação entre áreas de expansão portuária e as de apoio logístico, no caso do Porto de Santos, é uma equação complexa que depende da atuação coordenada e consensual de todos os entes envolvidos ao longo do trajeto das cargas, e não apenas localmente.
Isso vale para os acessos e terminais portuários e retroportuários atuais e previstos.
Entre a cruz e a espada, o ideal é que judicializações e externalidades negativas sejam evitadas, tanto quanto possível, em nome do desenvolvimento socioeconômico sustentado, estratégico para o Brasil.
Adilson Luiz Gonçalves escreve semanalmente para o Jornal BE News, com seus artigos publicados tradicionalmente na edição de sábado e domingo e, eventualmente, na de quarta-feira.