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Luis Claudio Santana Montenegro

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ES: a peça esperada que faltava no tabuleiro

O Espírito Santo é nota A na avaliação de risco do Tesouro Nacional há quinze anos seguidos e, nos últimos, alcançou o A+, o selo que hoje o distingue aos olhos dos investidores

Na semana passada, Vitória sediou o Sudeste Export, e não foi por acaso. Trazer para o solo capixaba o debate sobre infraestrutura compartilhada, coordenação territorial e o próximo salto de competitividade do Sudeste carrega um significado que ultrapassa a agenda do evento. O Espírito Santo, que já foi um gigante da Logística mas há tempo demais vinha sendo tratado como coadjuvante no tabuleiro do Sudeste, decidiu se movimentar. E se movimenta como quem estudou o jogo inteiro antes de mover a peça.

Nas edições anteriores, este espaço insistiu num diagnóstico: a política e a regulação portuária brasileira tomaram emprestados instrumentos de setores de monopólio, pensados para comando e controle, e seguiu sem identidade própria para um mercado que é, na essência, competitivo. Faltava mostrar, na prática, que existe outro caminho. Ele está sendo construído no litoral capixaba.

O pano de fundo já é conhecido de quem acompanha o setor. Portos naturalmente profundos, capazes de receber navios que hoje sequer acessam boa parte do Sudeste. Entre os projetos novos, o Porto da Imetame e o Porto Central despontam com fôlego para reposicionar o estado. Nos ativos que já operam, o interesse e o potencial de expansão é igualmente visível: terminais privados, como Portocel e Ubu, e a gestão privada dos portos de Vitória e Barra do Riacho, que avança até mesmo no complexo de Tubarão, enxergam espaço para crescer. Ao lado disso, a agenda ferroviária do Corredor Centro-Leste, ainda em passos mais curtos que os dos portos, porém viva no posicionamento para mais investimentos. O retrato é de um estado que saiu do papel e entrou na obra.

O que torna o caso capixaba singular vai além do tamanho do investimento. Está no modo de organizá-lo. É aqui que entra o ParkLog.

O ParkLog nasce como um modelo que é mais até do que uma plataforma logística que integra portos, ferrovias, rodovias, aeroportos e zonas de processamento de exportação. Primeiro no norte do estado, com Aracruz como âncora, e agora também no sul, com um tripé potente em Cachoeiro do Itapemirim, Presidente Kennedy e Anchieta. Ambos reúnem mais de doze bilhões de reais entre aportes públicos e privados. O ponto que merece atenção, contudo, está na engenharia institucional.

O modelo escapa do que o Brasil costuma fazer e o mérito está todo na origem das ações. O ParkLog parte de um planejamento construído pela sociedade organizada, e não desenhado a portas fechadas pelo governo da ocasião. Planejamento de estado como deveria ser a regra e quase nunca é. Ao poder público, reserva-se o papel de um estado empreendedor: coordenar, dar segurança jurídica, destravar investimentos e, com contas saneadas, ter a força de investir quando o interesse coletivo exigir.

Chamo isso de coordenação sem comando. O Estado brasileiro se habituou a coordenar comandando, definindo tarifa, intervindo, capturando a decisão de investimento. O arranjo capixaba propõe o inverso. Quem planeja e assume o risco é o setor produtivo; ao Estado cabe conduzir sem substituir o mercado e apoiar sem tomar a mão de quem investe. É a identidade regulatória que venho defendendo neste espaço, agora traduzida em desenho institucional e em território.

E o plano que nasce daí não para em atrair carga. Preocupa-se em preservar as áreas de expansão dos terminais antes que a cidade avance sobre elas, em ordenar a convivência entre porto e comunidade, em tratar a inovação como eixo e em formar mão de obra qualificada, com parcerias entre as instituições já fortes no estado e uma academia ávida por mergulhar num modelo inovador em escala mundial.

Esse tipo de aposta no setor portuário não é novidade no Espírito Santo. Foi ali que a autorização de portos privados avançou primeiro e onde, de forma inédita no País, um conjunto de portos públicos passou à gestão privada. Na escala que o Banco Mundial, em seu Port Toolkit, usa para classificar modelos portuários, da exploração pública à inteiramente privada, o estado vem subindo degraus que boa parte do Brasil ainda observa de longe. O ParkLog é o passo seguinte, e talvez o mais ousado.

Esse passo responde a um dilema concreto. Quanto mais se privatiza, maior o risco de cada terminal ou elemento estruturante de logística puxar para o seu lado e o conjunto perder os ganhos de escala que só a ação coordenada entrega. A governança do ParkLog existe para resolver isso: preservar a cooperação no que é de interesse comum, a coopetição de Michael Porter, sem tocar na concorrência entre os terminais. Cooperar no que soma, competir no que diferencia.

Reconhecer a elegância do desenho não é o mesmo que declará-lo pronto. A previsibilidade que atrai o investidor depende de regras capazes de atravessar ciclos políticos. E a ferrovia precisa alcançar o ritmo dos portos, sob risco de o estado erguer capacidade de atracação que a malha não consiga abastecer.

Há ainda um trunfo que poucos estados exibem. O Espírito Santo é nota A na avaliação de risco do Tesouro Nacional há quinze anos seguidos e, nos últimos, alcançou o A+, o selo que hoje o distingue aos olhos dos investidores. Foi o primeiro estado brasileiro a criar um fundo soberano, lastreado em royalties do petróleo, e dele derivaram um fundo de descarbonização para a transição energética e instrumentos de infraestrutura. É a força que dá substância ao estado empreendedor: entrar com capital quando o mercado, sozinho, hesita.

Vamos acompanhar os próximos movimentos nesse tabuleiro, e o estado capixaba promete jogadas cada vez mais estratégicas. E vamos ao debate!

Luís Cláudio Santana Montenegro escreve quinzenalmente para o BE News, com seus artigos publicados às quartas-feiras.

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