Executivos falam demais? O poder estratégico do silêncio
Em um mundo corporativo obcecado por respostas rápidas, movido por um senso de urgência sempre presente, o silêncio pode ser uma das ferramentas mais sofisticadas da liderança.
“Todos os problemas da humanidade derivam da incapacidade do homem de permanecer quieto em um quarto.”
Blaise Pascal
Vou lhe pedir que imagine uma cena, mas antes, saiba que eu a vivi pessoalmente. Ocorreu em uma das primeiras viagens que fiz à Ásia: um homem de meia idade, poucos cabelos brancos, sentado à sua mesa. O escritório, lotado, como eram antes do home office. Olhos semicerrados fixos no infinito, aparentando quase dormir.
Um colega, residente local, que me acompanhava desde a chegada, percebeu meu incômodo e, educadamente, deu a abertura para que eu perguntasse: Aquele senhor está dormindo? Está parado há quase 20 minutos!
A resposta fulminante: “Não. Ele está pensando!” E lá permaneceu sem ser incomodado por absolutamente ninguém, pelo tempo que quis.
Para nós ocidentais, “fazedores” por natureza, pouco planejadores, quando uma pergunta é feita, quase instantaneamente, alguém sempre se apressa em responder.
Nas conversas, o silêncio dura apenas o tempo suficiente para parecer desconfortável.
Em um mundo que valoriza por demais as respostas rápidas, talvez estejamos esquecendo exatamente o valor desse breve intervalo.
Quando foi a última vez que você permaneceu alguns segundos em silêncio antes de responder a uma pergunta?
A escolha deliberada de pensar antes de dizer qualquer coisa pode parecer um detalhe trivial. Mas, na prática, essa pequena pausa é muitas vezes o ponto em que começa a verdadeira tomada de decisão.
Em alguns mosteiros, monges passam dias — às vezes semanas — falando apenas o estritamente necessário. As refeições acontecem em silêncio. O trabalho cotidiano é realizado quase sem conversa. Nos corredores, as pessoas se cruzam sem pressa e sem necessidade de palavras.
Para quem vive nas cidades modernas, essa rotina pode parecer estranha. Em certos casos, até desconfortável. A necessidade de estar online para tudo e todos nos persegue.
Nossa vida profissional acontece no extremo oposto. Estamos cercados por reuniões, mensagens, opiniões imediatas e respostas rápidas. Falamos muito, enquanto ainda estamos pensando nas respostas.
Convencionamos, erroneamente, que o silêncio seja frequentemente interpretado como algo improdutivo — quase uma ausência de participação.
Esquecemos que ele cria espaço para observar, refletir e compreender antes de reagir. Não é uma ausência de atividade intelectual. Ao contrário, é o ambiente em que ela se torna possível.
Curiosamente, quanto mais observo o funcionamento das organizações modernas, mais percebo o quanto esse princípio simples parece ter desaparecido do cotidiano corporativo.
Principalmente entre executivos.
Muitas reuniões de alto nível se transformam em arenas de exposição de ideias. Todos falam. Todos explicam. Todos procuram demonstrar clareza e convicção.
Mas quando a conversa se transforma em um fluxo contínuo de opiniões, algo essencial começa a faltar: a escuta verdadeira. Sem escuta, dificilmente haverá compreensão profunda do problema.
Executivos falam muito. Líderes escutam primeiro, pois compreendem algo simples: não são as respostas que movem o mundo, mas as perguntas corretas, como observou Voltaire: “Julgue um homem pelas suas perguntas, não pelas suas respostas.”
Decisões estratégicas raramente nascem de respostas dadas velozmente.
Elas surgem quando alguém tem a disciplina de ouvir com atenção suficiente para entender o que ainda não está claro.
Mas o silêncio costuma ser mal interpretado dentro das organizações.
Quem fala muito parece ativo. Quem responde imediatamente transmite segurança.
Na prática, porém, liderança verdadeira não é um exercício de retórica.
Algumas das melhores decisões que já presenciei em ambientes corporativos vieram do executivo que ouviu todos os argumentos, permaneceu alguns segundos em silêncio e então fez uma pergunta capaz de reorganizar toda a discussão.
Liderar exige algo que raramente aparece nos manuais de gestão: disciplina mental: a disciplina de ouvir até o fim, de resistir à tentação de responder imediatamente, de tolerar alguns segundos de silêncio em uma sala cheia de expectativas.
Parece simples. Mas não é.
Talvez por isso a frase escrita por Pascal no século XVII continue tão atual.
Respondemos antes de compreender completamente o que está acontecendo.
E, nesse excesso de palavras, muitas vezes perdemos exatamente o tempo necessário para pensar.
Os monges entenderam algo que líderes modernos ainda estão aprendendo: o silêncio não é passividade.
Em certos momentos, ele pode ser uma das formas mais sofisticadas de atenção — e uma ferramenta silenciosa de liderança estratégica. Quem escuta primeiro compreende o problema.
Mas há algo ainda mais revelador: entender que o silêncio não pode durar apenas o tempo suficiente para alguém demonstrar que tem uma resposta. Precisa durar o tempo necessário para compreendermos a pergunta.
Na próxima reunião importante da sua organização, experimente algo simples: Fale menos. Escute mais.
Pode ser que a melhor decisão da reunião surja exatamente do momento em que ninguém está falando.
E talvez a pergunta mais importante não seja o que você tem a dizer — mas o que ainda precisa ouvir.
E decisões melhores quase sempre começam por aí.
Hudson Carvalho é consultor em Estratégia de Gestão de Pessoas, diretor regional da Wisdom – Gestão Organizacional (Desenvolvemos Pessoas e Processos) para o ABCD e Baixada Santista (SP) e diretor executivo da Elabore-Online – Pessoas e Resultados. Ele escreve semanalmente para o BE News, com seus artigos sendo publicados às segundas-feiras