Ficar ou partir? Eis a questão!
“E assim chegar e partir
São só dois lados da mesma viagem
O trem que chega é o mesmo trem da partida”
Trecho de Encontros e Despedidas, de Milton Nascimento e Fernando Brant, eternizada na voz de Elis Regina
Se vocês estão lendo esse texto, é “culpa” do meu genro, Igor. Eu já tinha tudo pronto para falar de outro assunto. Fica para a próxima.
Não ponham a culpa nele. É um ótimo rapaz, educado e de ótima Família. Capacitado, brilhante, essa foi a razão de sua ligação, já meio fora de hora.
Recebeu uma proposta de trabalho de outra empresa e tem que responder em curtíssimo prazo. Uma daquelas vagas do melhor tipo: as que não são anunciadas. A ex-chefe, pessoa de sua confiança, que ele acredita ser uma das melhores profissionais com quem ele já trabalhou, o convidou para o processo de seleção. E ele passou.
Salário maior, benefícios nem tanto, mas o conjunto compensa. O cargo, superior ao seu atual, numa empresa de maior porte daquela onde hoje trabalha. Ora, por que o dilema? Aceite!
Não é assim tão fácil. O atual empregador também é uma boa empresa, onde ele vem crescendo gradativamente – e está às vésperas de um ciclo anual de avaliação de desempenho, onde tudo indica que ele irá bem e pode ser promovido.
Já não está tão simples. O tempo é curto, as variáveis, muitas.
Vamos começar pelas que são fáceis de avaliar: remuneração. É algo que varia demais, dependendo da carreira, se a vaga é para o mesmo cargo que se possui (ou acima), da região do País e até do comportamento da economia. De uma forma geral, as ofertas para uma mudança com promoção giram em torno de 20%. É um número que o mercado aceita bem e vale inclusive para você, que pensa em trocar de emprego, fazer as suas contas, na hora em que surgir aquela fatídica pergunta: “Qual a sua pretensão salarial?”
Mas nem tudo se resume a números. É importante avaliar se a empresa proponente oferece condições de crescimento (ninguém quer ser promovido apenas uma vez) e se – quem lá trabalha – entende que há um bom ambiente de trabalho. O LinkedIn oferece informações interessantes se você tiver paciência de avaliar perfis de seus futuros colegas, quanto tempo trabalham por lá, quanto tempo permanecem em cada posição, o tipo de posts que fazem e os que faz a própria organização. Perguntar para uma pessoa de sua confiança também é uma boa ideia.
Tendo avaliado o potencial futuro empregador, é preciso planejar como conduzir a conversa com o atual gestor, sempre em particular e na primeira hora do dia, se possível. Assim ele terá tempo de reagir, falar com seu superior, com o RH e todos os que poderão ajudá-lo a lhe dar uma resposta.
A primeira pergunta a fazer a si próprio é: Eu pretendo sair de verdade, ou vou usar essa oportunidade para tentar usar o convite para forçar uma promoção?
Cuidado! Todo ato tem consequências. Seu chefe dificilmente esquecerá que um dia você o colocou em posição de ter que resolver o problema de sua eventual saída. Não esqueça que – sob a perspectiva dele – esse momento pode soar como uma mácula no seu perfil de liderança, afinal, ele “está sendo trocado por outro’. Nem todos conseguem deixar de considerar isso como algo pessoal.
Se sua decisão de sair está tomada, simplesmente comunique. Agradeça a oportunidade de ter trabalhado na empresa, informe a data de saída e pronto. Sair de qualquer lugar deixando as portas abertas faz toda a diferença e, …o mundo dá voltas, não é?
Se pretende um blefe, mais cuidado ainda. A resposta – desagradável – pode ser: “Siga o seu caminho.” E você terá que seguir.
A maioria dos bons profissionais que conheci – eu próprio já estive nessa condição mais de uma vez – optou pela primeira opção. Recebendo uma boa proposta, sair. Por que tomamos essa decisão? Porque, mesmo que a atual empresa cubra a proposta, promova-o, sempre ficará em nossas cabeças a seguinte pergunta: Se podiam me reconhecer, por que não fizeram antes?”.
Então, repito, pense bem no caminho que pretende tomar.
Há algo a ser evitado a todo custo. Algo que depõe sobremaneira sobre sua conduta profissional: fazer leilão, como se diz na gíria. Significa receber uma oferta, levar ao atual empregador, receber contraproposta melhor e voltar à empresa proponente tentando aumentar a oferta inicial. Não pega bem. Você seria mal visto nas duas organizações. Péssimo negócio.