Folhas de outono
O velho faxineiro varre as folhas mortas do outono espalhadas na calçada do hotel. O verde viçoso deu lugar ao cobreado tom que agora domina o cenário de árvores e prédios de tijolos aparentes. Há uma beleza triste no vento frio da estação.
O outono parece preparar o espírito da natureza para o próximo tempo de introspecção. Ensimesmado, o velho faxineiro recolhe as folhas encharcadas na madrugada que agora se foi. Em qualquer tempo há a chuva, a obrigar ao abrigo, enquanto irriga o planeta com a água eternamente transformada.
Se gloriosas, as árvores se desapegaram de seus ramos, convictas do ciclo bem cumprido, testemunham agora que, mesmo mortas, as folhas se transmudam e, umedecidas, perdem a secura que atestava a vitalidade em outras estações.
Mentira que a morte esturrica a vida. Transforma-se em húmus para o que há de vir caso o faxineiro permita a dádiva da germinação na terra a circundar a estática árvore, nascida num tempo perdido.
O inverno está próximo e será momento de íntima reflexão que alimentará o desejo, a crença de que, depois de tudo, surgirá a primavera, e novos rebentos fertilizarão a esperança.
Brotos surgirão então e o velho faxineiro não precisará varrer mais o que se foi, e estará regando as novas folhas coadjuvantes de flores e frutos, contra a imagem dos prédios de fachadas atijoladas.
Nem estas parecerão mais tristes. Haverá o encanto das cores para alegrar o cenário.
Só o velho faxineiro será o mesmo caso o vigor não tenha perecido no rigor do inverno. Continuará varrendo o caminho para hóspedes do hotel que a qualquer tempo surgem e vão.
O homem será, pois, aquele que estará de guarda para protejer os pequeninos ramos exibidos no sol primaveril e que gerarão sombras para atenuar o suor do velho no ciclo da vida que não se terá perdido. Afinal, a vida é feita de luz e de sombras.