Humanismo, oportunismo ou cumplicidade?
O que os governos têm feito não tem surtido o efeito desejado, pois nossa legislação não inibe nem pune adequadamente. Pelo contrário, tornou o crime um negócio lucrativo, que pode ser gerido mesmo de presídios.
Os EUA há tempos já vinham acenando com a possibilidade de incluir o PCC e o CV na condição de grupos terroristas internacionais.Os EUA há tempos já vinham acenando com a possibilidade de incluir o PCC e o CV na condição de grupos terroristas internacionais.
Alguns se levantaram, revoltados, alegando que isso interferiria na soberania nacional, o que faz sentido no âmbito do discurso político. No entanto, quando se trata da ação desses dois grupos, o que tem sido feito para “não dar motivos” internamente e externamente?
Esses grupos atualmente são muito mais organizados e armados do que algumas instituições cuja função é combatê-los. Para piorar, alguns dos que se dizem defensores dos direitos humanos e legalistas têm atuado, consciente ou inconscientemente, mais em favor dos criminosos do que de suas vítimas, milhares, quiçá milhões, aqui e pelo mundo afora.
Corruptos, criminosos em geral e, principalmente, traficantes de drogas e de seres humanos parecem ter mais direitos do que suas vítimas.
Já ouvi falar que, durante o Regime Militar, consideraram que prender presos políticos com criminosos comuns seria uma forma de limitar sua atuação, ou coisa pior. No entanto, essa “parceria” teria sido o embrião do crime organizado atual.
A forma como o PCC e o CV evoluíram a partir dos presídios faz crer que há algo de verdade nisso, tanto é que os esquemas de lavagem de dinheiro são altamente sofisticados e eficazes, e o investimento na formação de quadros universitários em algumas áreas-chave tem propiciado sua infiltração nas principais instituições do país.
Consta que aliciam profissionais competentes, selecionados por terem família, o que pode ser lucrativo, por um lado, mas os torna reféns.
O arcabouço legal atual também os favorece, sendo que já houve casos de criminosos terem o que obtiveram de forma ilegal devolvido, por decisão judicial. Alguns também puderam fugir do país, quando suas prisões foram relaxadas, como se não representassem risco de comprometimento das investigações. Quem soltou foi responsabilizado?
Não se sabe ao certo o quanto o poderio financeiro e o assédio às autoridades têm sido capazes de favorecer sua atuação, mas as filigranas e meandros legais existentes permitem interpretações “legalistas” e contestações infindáveis. Uma irregularidade no processo é suficiente para que crimes terríveis deixem de ser julgados.
Houve um tempo em que facções lançaram candidatos a cargos eletivos, o que foi rapidamente abafado. No entanto, descobriram que havia outros meios, mais “discretos”, para alcançarem seus objetivos.
O fato é que existem territórios dominados pelo crime organizado, onde governos não conseguem atuar, até em função de decisões judiciais que, sob o pretexto de protegerem a população de comunidades, a transforma em um “escudo humano” para as facções criminosas.
O PCC e o CV são os mais conhecidos e temidos, mas também deram origem a outras organizações violentas em todo o país, além de estarem presentes em vários países, semeando vícios que afetam milhões de pessoas, também destruindo vidas pela prostituição forçada.
Isso não é um terror!
O que os governos têm feito não tem surtido o efeito desejado, pois nossa legislação não inibe nem pune adequadamente. Pelo contrário, tornou o crime um negócio lucrativo, que pode ser gerido mesmo de presídios.
Em vez dos criminosos terem medo, os amedrontados, até pelas limitações impostas pela lei, é que temem por suas vidas e de suas famílias.
Por tudo isso, fica a dúvida de que o humanismo alegado por alguns defensores de direitos humanos pode ser uma desculpa para transitar entre o oportunismo e a cumplicidade.
Consta que Auguste de Saint-Hilaire, naturalista francês, teria cunhado a frase: “Ou o Brasil acaba com a saúva, ou a saúva acaba com o Brasil”. Mário de Andrade, em Macunaíma, também versou sobre o tema: “Pouca saúde e muita saúva, os males do Brasil são”.
Essas frases se aplicam ao crime organizado e aos corruptos, financiados ou não por ele, pois ambos estão acabando com o Brasil, interna e externamente.
Adilson Luiz Gonçalves escreve semanalmente para o Jornal BE News, com seus artigos publicados tradicionalmente na edição de sábado e domingo e, eventualmente, na de quarta-feira.