Inovação nos portos: desafios e oportunidades
A participação de Gilmara Temóteo, diretora-executiva da Associação Brasileira de Entidades Portuárias e Hidroviárias (Abeph), no fórum Mercosul Export 2025, em Assunção (Paraguai), nas últimas quinta e sexta-feira, revelou um panorama de avanços e desafios cruciais para o setor portuário e hidroviário do Brasil. Ao representar o mercado portuário, que movimenta expressivos 95% do comércio exterior do País e contribue com cerca de 26% do PIB nacional, a executiva reforçou a prioridade estratégica que deve ser dada para a inovação e a transformação digital.
Apesar dos avanços, o setor portuário brasileiro ainda enfrenta gargalos significativos, notadamente o “Custo Brasil”, que resulta em perdas anuais de R$ 4,3 bilhões. A baixa integração modal, a complexidade tributária e a insegurança jurídica continuam a minar a competitividade, enquanto o investimento público em infraestrutura permanece muito abaixo da média global. Nesse cenário desafiador, a transformação digital emerge como um catalisador de mudanças, com a crescente adoção de tecnologias como o Port Community Systems (PCS), a inteligência artificial, a Internet das Coisas e o conceito de gêmeo digital. Os R$ 60 milhões investidos pelo Porto de Santos (SP) em sua modelagem virtual e a redução de 50% no tempo médio das operações em Suape (PE), graças ao sistema PMIS, são exemplos concretos de como a tecnologia pode gerar ganhos expressivos.
A importância de as administrações portuárias investirem em inovações tecnológicas é inegável diante de resultados como a redução de custos e a ampliação da eficiência de seus procedimentos e operações. A visão do “porto 4.0”, que vai além da tecnologia e exige “pessoas 4.0” – capacitadas, conectadas e protagonistas das mudanças –, ressalta que a modernização é um processo que envolve tanto a infraestrutura digital quanto o capital humano. A estimativa do Senai de que o Brasil precisará qualificar 14 milhões de trabalhadores até 2027, com uma grande parcela no setor logístico, sublinha a urgência de investimentos em formação profissional.
A crescente digitalização, entretanto, traz consigo novos desafios, como a segurança cibernética. O ataque hacker ao Porto de São Francisco do Sul (SC) em 2024, que comprometeu mais de 880 mil documentos, serve como um alerta. A resposta, com a adoção de programas robustos de governança tecnológica em portos como Itaqui (MA) e Paranaguá (PR), demonstra a necessidade de resiliência e proteção contra ameaças digitais.
Além da tecnologia, a agenda ESG (Ambiental, Social e Governança) tem se consolidado como um eixo essencial da nova gestão portuária. A eletrificação de berços em Santos e Salvador (BA) e a liderança do Porto do Açu (RJ) em ações voltadas à transição energética evidenciam que a incorporação de valores ESG em seus processos deixou de ser uma tendência, para se tornar uma exigência de mercado e de governança. A sustentabilidade no setor portuário não se limita apenas à redução de emissões, mas abrange toda a cadeia de valor, desde a eficiência energética até a responsabilidade social.
A inovação na gestão portuária é uma realidade inquestionável, mas precisa ser intensificada. A combinação estratégica entre tecnologia, qualificação de pessoas, governança e sustentabilidade é o único caminho para transformar os portos brasileiros em centros logísticos modernos, eficientes e verdadeiramente conectados com o futuro, garantindo sua relevância e competitividade no cenário global.