Inovar na logística brasileira ainda é uma escolha?
O setor logístico está diante de um ponto de inflexão: ou escolhe inovar, ou será superado por quem já entendeu que o futuro não espera.
A logística brasileira vive um ponto de inflexão.
O que nos trouxe até aqui — eficiência operacional, controle de custos e resiliência — já não será suficiente para nos levar adiante. Em um setor que funciona como o sistema circulatório da economia nacional, estagnar é o prelúdio do colapso.
Aceitar o convite para integrar o time de colunistas do BE News (Brasil Export News) é mais do que uma honra pessoal. É uma oportunidade de contribuir com o debate estratégico sobre como a inovação pode — e deve — redefinir o futuro da logística no Brasil.
Ao longo dos últimos anos, tenho acompanhado de perto empresas e operadores que buscam se adaptar a um novo tempo, marcado pela inteligência artificial, pela automação e pela integração de dados em tempo real. Essa adaptação não é uma ruptura, mas tampouco uma mera atualização.
É uma mudança de paradigma: a logística deixa de ser apenas operacional para se tornar estratégica, digital e cognitiva.
A inovação como escolha estratégica
A inovação sempre foi uma escolha — e continua sendo.
A diferença é que agora ela se tornou uma escolha determinante para quem deseja permanecer relevante.
Nos setores mais tecnológicos, como o financeiro, o farmacêutico ou o aeroespacial, inovar deixou de ser alternativa e virou regra.
Na logística, esse movimento começa a se consolidar como um caminho alternativo, capaz de gerar ganhos imediatos de produtividade e eficiência no curto prazo e abrir novas possibilidades de negócio no médio e longo prazo.
No passado, a logística era vista apenas como transporte, armazenagem e distribuição. Hoje, ela é o coração da estratégia operacional — tanto para quem tem a logística como meio, quanto para quem a tem como fim.
Dado o impacto dos custos e a importância da confiabilidade, a logística deixou de ser parte da estratégia operacional e passou a ser a própria estratégia.
Inovar, nesse contexto, é encontrar novas e melhores formas de resolver problemas antigos, equilibrando o valor de curto prazo com a sustentabilidade de longo prazo.
O custo de não inovar
A história mostra que nenhuma indústria é imune à disrupção — e a próxima revolução já tem endereço certo.
Empresas como a Virgin Galactic testam foguetes suborbitais capazes de realizar trajetos intercontinentais em uma fração do tempo atual.
Imagine um voo de São Paulo a Xangai, que hoje dura quase 30 horas, sendo feito em pouco mais de uma. Quando essa tecnologia estiver disponível ao consumidor final, qual será o futuro da aviação comercial tradicional?
Nos centros urbanos, o projeto eVTOL da Uber promete viagens aéreas curtas e acessíveis, com custo semelhante ao de um táxi. Como isso vai transformar a logística urbana e o deslocamento de pessoas nas grandes cidades? E a disrupção já chegou ao Brasil. A parceria entre a Speedbird e o iFood realizou, em Aracaju, a primeira entrega comercial por drone do país. Um trajeto que antes levava cerca de 30 minutos foi concluído em apenas 4. Se essa tecnologia for ampliada, como ficará a logística last mile dentro das cidades — o elo mais caro e crítico de toda a cadeia?
Esses exemplos mostram que a fronteira entre o que é tecnologia e o que é logística está desaparecendo. E quem não se adaptar corre o risco de ser ultrapassado — não por um concorrente direto, mas por uma mudança de paradigma.
A inteligência artificial já está aqui
A inteligência artificial já é uma realidade na logística brasileira — ainda que usada, por enquanto, de forma tímida.
O investimento em IA no país cresceu 46% em 2023, alcançando US$ 1,9 bilhão, com projeção de chegar a US$ 5,5 bilhões até 2027 (McKinsey, 2024). Hoje, os custos logísticos representam 18,4% do PIB nacional, e o uso estratégico da IA pode aumentar a precisão das previsões em 30%, melhorar a acurácia de inventários em até 95% e reduzir custos em cerca de 15% (IFS Ultimo, 2024; ABOL, 2024).
Mas as barreiras ainda são significativas. 63% das empresas citam segurança e privacidade como entraves, 55% apontam a falta de competências técnicas, e 39% indicam o custo como obstáculo principal (KPMG, 2025). O maior desafio, porém, não é tecnológico — é cultural e estratégico.
A IA tem sido aplicada majoritariamente em automações operacionais: emissão de ordens de serviço, pagamentos, controle de lead times e monitoramento de frotas. Esses são ganhos legítimos, mas limitados.
O verdadeiro potencial está em repensar processos, decisões e modelos de negócio com base em dados e aprendizado contínuo. Antes de automatizar tarefas, é preciso automatizar o pensamento — e isso começa com liderança e governança.
Mais do que Tecnologia: Uma Mudança de Mentalidade
Mesmo que a logística se digitalize, ela continuará sendo um setor de ativos físicos — frotas, armazéns, dutos, navios, aviões. O papel da inovação, portanto, é conectar o físico e o digital com inteligência, criando sistemas híbridos que operam com eficiência e visão.
O que diferencia as empresas inovadoras não é o software que elas compram, mas a forma como escolhem usá-lo. A inovação não nasce da tecnologia, mas da mentalidade que decide transformá-la em valor. E essa mentalidade é, acima de tudo, um exercício de liderança.
Um convite ao diálogo
O futuro da logística brasileira está sendo escrito agora. E será definido pela nossa capacidade de integrar tecnologia, repensar modelos de operação e liderar com visão estratégica.
Nesta coluna, quero explorar como a inovação pode ser gerida com método, propósito e coragem — não como discurso inspirador, mas como ativo real de competitividade.
Mais do que uma coluna, este será um ponto de encontro entre visão e execução, entre o que sonhamos e o que podemos realizar.
Porque, no fim, a inovação não é mais sobre ser o primeiro — é sobre continuar existindo.
Raul Lamarca escreve para o BE News semanalmente, com seus artigos publicados sempre às sextas-feiras