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Vivian Ribeiro Madsen Figueiredo

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Inteligência artificial: os desafios da nova infraestrutura digital

A expansão da inteligência artificial pode representar uma oportunidade extraordinária para o Brasil. A matriz elétrica renovável, a disponibilidade de recursos naturais, a extensão territorial, a conectividade internacional e o potencial de expansão da geração colocam o país em posição competitiva para atrair investimentos em infraestrutura digital. Entretanto, esse avanço exige planejamento antecipado.

A inteligência artificial já deixou de ser uma promessa tecnológica para se tornar parte da vida cotidiana. Ferramentas capazes de produzir textos, imagens, vídeos, realizar pesquisas, automatizar atividades e apoiar decisões empresariais passaram a ser utilizados em larga escala. Por trás dessa transformação estão os data centers, infraestrutura física essencial ao funcionamento do mundo digital.

Os data centers funcionam como grandes complexos computacionais onde ocorre o processamento dos modelos de inteligência artificial. Deste modo, à medida que a utilização da tecnologia cresce, a demanda por servidores, eletricidade, sistemas de refrigeração e toda a infraestrutura necessária para manter seu pleno funcionamento também amplia. A expansão da inteligência artificial, portanto, produz um efeito que ultrapassa o universo digital: ela começa a alterar a lógica de planejamento da infraestrutura energética e hídrica.

Segundo a Agência Internacional de Energia (IEA), os data centers consumiram aproximadamente 415 TWh de eletricidade em 2024, o equivalente a cerca de 1,5% do consumo mundial. No cenário-base da entidade, esse consumo deverá mais que dobrar até 2030, alcançando cerca de 945 TWh o que deverá representar aproximadamente 3% da demanda global de eletricidade. A disseminação da inteligência artificial é apontada como o principal vetor desse crescimento.

O Brasil também faz parte dessa transformação e possui grandes projetos voltados à instalação de data centers em diferentes regiões do país. No Rio de Janeiro, a Rio AI City já conta com uma unidade denominada RJ01 com capacidade energética inicial de 1,5 GW, e prevê sua expansão com a construção de outras unidades que exigirá a expansão da capacidade energética para até 3 GW em 2032.

Em Uberlândia (MG) e Maringá (PR) estão localizados outros grandes projetos desenvolvidos pela RT-One, empresa multinacional que já marca presença nos Estados Unidos, no México e na Suíça. Os data centers dedicados à inteligência artificial e computação de alto desempenho preveem 100 MW contratados inicialmente em cada campus com possibilidade de expansão para centenas de megawatts.

Deste modo, o desafio enfrentado pelos investidores do setor, que também merece atenção dos órgãos públicos, consiste em definir quem fornecerá a energia demandada, onde ela estará disponível e como o sistema elétrico brasileiro absorverá essa demanda sem comprometer a segurança, a modicidade tarifária e o atendimento aos demais consumidores?

A matriz energética brasileira confere ao país uma posição competitivamente favorável. Em 2025, 86,6% da oferta interna de eletricidade brasileira teve origem em fontes renováveis, enquanto a geração eólica e solar, conjuntamente, já representa 26,4% da geração total. Essa característica confere ao país uma vantagem competitiva diante de investidores que procuram não apenas energia em quantidade e a preços competitivos, mas também eletricidade de menor intensidade de carbono.

Essa vantagem, contudo, não significa que exista energia disponível, indistintamente, em qualquer ponto do território nacional. Para um data center, não basta haver geração suficiente no sistema elétrico. É necessário que exista capacidade de conexão, transmissão e distribuição no local adequado, além de potência firme, qualidade e confiabilidade do fornecimento.

A própria Empresa de Pesquisa Energética (EPE) reconhece que os data centers demandam grandes cargas capazes de impactar diretamente o planejamento da expansão da transmissão. Por essa razão, passou a coletar informações sobre os projetos em desenvolvimento, destacando que as previsões de demanda são insumos essenciais para dimensionar a expansão da rede e os futuros leilões de energia e de reserva de capacidade.

Esse ponto é especialmente importante porque existe um descompasso estrutural entre o tempo da tecnologia e o tempo da infraestrutura. Um data center pode ser construído e colocado em operação em poucos anos; a expansão de linhas de transmissão, subestações e demais instalações do sistema elétrico exige planejamento, licenciamento, contratação e execução que podem demandar período significativamente maior. 

Para além dos gargalos energéticos, os data centers de grande porte também podem demandar volumes expressivos de água para os sistemas de refrigeração. Servidores de alta densidade produzem grande quantidade de calor e uma das tecnologias mais utilizadas para dissipar o calor utiliza água para refrigeração. Entretanto, o avanço da tecnologia já desenvolveu sistemas de refrigeração eficientes que dispensam a demanda de água. 

A diferença entre essas soluções evidencia que a sustentabilidade de um data center não pode ser aferida exclusivamente pela origem renovável da eletricidade que o abastece. É necessário considerar também a disponibilidade hídrica da região, a tecnologia de refrigeração empregada, a eficiência energética, os potenciais impactos sobre os recursos naturais e as condições ambientais locais. O desafio brasileiro, portanto, não é escolher entre atrair data centers e preservar a infraestrutura existente, mas criar condições para que essas duas agendas avancem simultaneamente.

A expansão da inteligência artificial pode representar uma oportunidade extraordinária para o Brasil. A matriz elétrica renovável, a disponibilidade de recursos naturais, a extensão territorial, a conectividade internacional e o potencial de expansão da geração colocam o país em posição competitiva para atrair investimentos em infraestrutura digital. Entretanto, esse avanço exige planejamento antecipado. O crescimento da geração de energia precisa caminhar conjuntamente com a transmissão e a distribuição, de modo a assegurar que a energia esteja efetivamente disponível onde e quando esses novos empreendimentos necessitarem.

Da mesma forma, os aspectos ambientais e hídricos precisam ser incorporados desde a concepção dos projetos, e não apenas examinados quando sua instalação já estiver definida. A localização de um data center deve considerar não apenas a disponibilidade de energia, mas também a capacidade de suporte ambiental do território.

A inteligência artificial promete transformar a economia e a vida das pessoas. Para que essa transformação seja sustentável, entretanto, será necessário reconhecer uma realidade simples: não existe inteligência artificial sem infraestrutura física, a qual, por sua vez, exige planejamento, redes, energia e água. É nesse equilíbrio entre inovação, infraestrutura e sustentabilidade que estará a verdadeira competitividade brasileira na era da inteligência artificial.

Vivian Ribeiro Madsen Figueiredo e outros profissionais do escritório Almeida Prado e Hoffmann Advogados escrevem para o BE News quinzenalmente, com seus artigos publicados sempre às quintas-feiras.

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