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Luiz Dias Guimarães

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“Livro e pudim para unir”

“Mas quem diria que a solidão da leitura seria pretexto para o compartilhamento do existir? É o que sugere a rave criada em Nova Iorque durante a pandemia e agora amplamente conhecida como Reading Rhythms, festas de leitura. A multidão se reúne, cada um lê silenciosamente um livro por vinte minutos, depois conversa com um desconhecido sobre o que leu por quinze minutos. E por fim todos compartilham suas ideias”

Qual o sentido de tanta gente se reunir para comer pudim com garfo? Pois a moda, criada na Alemanha, chegou a Lisboa, pretexto para estar junto, demoradamente. Assim como atrair uma multidão para ler um livro em Nova Iorque. Quem diria que ler, ato solitário, pode arregimentar mais de duas mil pessoas!

O milênio surpreende a cada momento com idiossincrasias como adotar um bebê reborn, integrar uma matilha passando-se por animal ou ainda se apaixonar por uma robô humanóide.

Mas há, em cada tresloucada atitude individual ou coletiva, um sentido. E aqui estou a falar da busca frenética, ainda que disfarçada de modismo, do sentimento de estar fisicamente junto. 

A leitura, eu sei, é um hábito fragilizado pelo frenesi das pequenas telas. Um editor lamentou-se que hoje há mais escritores que leitores. Isso é real em quase todo o mundo. As tardes de autógrafo sempre acabam sendo motivo para se encontrar outros autores, o que me lembra uma história.

Certa vez, um prefeito não muito afeito à vida acadêmica, incomodado com um erudito opositor que se gabava de ostentar no currículo conferências na heráldica Sorbonne,  de Paris, perguntou a um jurista como se dá essa proeza de palestrar na famosa universidade. Veio a explicação: “Você se inscreve para palestrar lá e, na data concedida, ocupa a tribuna e profere a conferência naquele majestoso auditório”. Mas para quem? “Para todos os outros que estão aguardando sua vez de ocupar o púlpito”.

Mas o desfacelamento do ato civilizatório de ler não atinge a todos. Na Finlândia, por exemplo, lê-se quase todos os dias. Lá existem mais de novecentas bibliotecas públicas, fenômeno para um país tão pequeno a nos envergonhar. Tudo porque ler, alimento para o cérebro, é um hábito de prazer e liberdade.

Mas quem diria que a solidão da leitura seria pretexto para o compartilhamento do existir? É o que sugere a rave criada em Nova Iorque durante a pandemia e agora amplamente conhecida como Reading Rhythms, festas de leitura. A multidão se reúne, cada um lê silenciosamente um livro por vinte minutos, depois conversa com um desconhecido sobre o que leu por quinze minutos. E por fim todos compartilham suas ideias. 

O livro tem um poder mágico que extrapola a descoberta da vida! Em 1935, período da Grande Depressão nos Estados Unidos, com fome e desespero, surgiram as Mulheres do Livro, muitas viúvas, outras apenas abnegadas, que percorriam quilômetros a cavalo e carroças simplesmente para distribuir livros, de qualquer gênero, de casa em casa. Não matavam a fome do estômago, mas a da esperança. Ao final da Segunda Guerra, haviam entregue mais de cem mil livros a mais de cem mil pessoas. Provaram sim que a alma também requer alimento.

O livro, pois, é nutriente. Agora também elo de integração. Afinal, no milênio do distanciamento físico, há quem se rebele e ache um jeito de largar o celular e sentar-se ao lado de alguém. Nem que seja para simplesmente sorver um pudim com um garfo, se rebelando contra a pressa e o sentimento de estar só no mundo.

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